quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Quando se trata da segurança dos alimentos, tudo tem limite!

Durante a pandemia da Covid-19, as preocupações com a saúde ganharam uma nova dimensão. Ações como lavar as mãos com frequência, usar álcool em gel e tirar os sapatos antes de entrar em casa passaram a fazer parte da rotina e, certamente, salvaram muitas vidas. Mas, sem tratamento efetivo, o que nos trouxe alívio mesmo foi a chegada das vacinas.

Os agricultores conhecem bem essa realidade. Doenças e pragas são ameaças constantes no campo. Sem controle, podem destruir lavouras, comprometer a produção e o fornecimento de alimentos para a população. Para ter ideia do tamanho do problema, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) afirma que o mundo perde entre 20 e 40% de todo o alimento que produz por causa do ataque de pragas e doenças agrícolas.

Por isso, da mesma forma que recorremos a vacinas e medicamentos para prevenir e curar doenças, os produtores rurais precisam dos defensivos agrícolas para proteger suas lavouras. É o que garante comida em quantidade e a preços acessíveis.

Ainda assim, há quem questione essa prática. Entre as alegações de quem é contra o uso de agrotóxicos, está a possibilidade de que esses produtos deixem resíduos nos alimentos e prejudiquem a saúde da população.

Pensando objetivamente, praticamente tudo que usamos no nosso dia a dia deixa resquícios. O sabão de lavar roupa, o combustível do carro e os remédios que tomamos para tratar doenças, por exemplo, não desaparecem magicamente do ambiente.

No caso dos agrotóxicos, a ciência criou parâmetros para avaliar as consequências da exposição humana a esses resíduos e estabeleceu limites seguros para a saúde das pessoas. No Brasil, quem determina os limites é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão faz parte do sistema regulatório federal e avalia cada defensivo agrícola antes de conceder o registro para uso no campo.

As análises da Anvisa seguem metodologias internacionais cientificamente reconhecidas. Entre elas, os protocolos determinados pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Quando aprova um defensivo, a agência determina um Limite Máximo de Resíduo (LMR), expresso em miligramas do agrotóxico por quilo do alimento (mg/Kg), que pode restar no produto após a aplicação do agrotóxico. O LMR é um parâmetro agronômico, obtido em estudos de campo que simulam o uso correto do produto pelo agricultor.

Esse valor é um dos componentes empregados no cálculo da IDA (Ingestão Diária Aceitável), o limite de segurança para a saúde humana. Medida em miligramas de agrotóxico por quilo de peso da pessoa que consome o alimento tratado, a IDA é determinada a partir da maior dose administrada em cobaias de laboratório que não causou alterações metabólicas. Essa dose é, depois, dividida por 100, ou seja, representa apenas 1% da porção que não causou nenhum problema.

Extrapolando os dados de animais para humanos, se estabelece a quantidade máxima de agrotóxico que podemos ingerir por dia, durante toda a vida, sem causar qualquer dano à saúde. Vale ressaltar que o uso de animais em ensaios toxicológicos exigidos para os agrotóxicos vem sendo reduzido ano a ano, com o maior desenvolvimento de testes in vitro (em células).

Também é preciso monitorar e fiscalizar se as regras estão sendo cumpridas. No Brasil, existem sistemas com essa finalidade voltados ao campo e aos pontos de venda. Desde 2001, por exemplo, a Anvisa coordena o PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos), que analisa alimentos frescos coletados nos mercados.

Na última década, os resultados do programa apontam índices muito baixos e decrescentes de produtos com resíduos acima do permitido. Em 2011, foram 2,3% das amostras; em 2015, 1,11%; e, no último relatório, apresentado em 2019, de 4 616 amostras de alimentos testados para a presença de 270 ingredientes ativos de defensivos agrícolas, apenas 0,89% apresentava risco agudo para os consumidores brasileiros.

Devido à pandemia, o PARA teve dificuldades para realizar a coleta de amostras em 2020 e a Anvisa ainda não divulgou os resultados dos últimos dois anos. Mas, de acordo com o histórico do programa, o consumidor brasileiro pode ficar tranquilo. Os alimentos produzidos e vendidos no país são seguros.

* Andreza Martinez é engenheira agrônoma, mestre em Entomologia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e diretora da divisão de defensivos químicos da CropLife Brasil


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terça-feira, 3 de agosto de 2021

A arquitetura hospitalar sob a ótica de um paciente na UTI

“Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um voo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal”
(Fernando Brant e Lô Borges)

Da janela lateral do quarto de dormir, vejo a Igreja do Calvário na Avenida Brasil, vejo os muros brancos e invisíveis da cidade, sinto os primeiros raios solares que despontam logo atrás do edifício do InCor, lá no alto do espigão que cruza a Avenida Dr. Arnaldo e segue pela Avenida Paulista, vejo um sinal de glória a menos de 2 km da janela lateral do meu apartamento na Vila Madalena, uma energia que tinge toda cidade de dourado.

Em setembro de 2020, entrei na fila de transplantes de coração do InCor, e, no dia 6 de junho de 2021, fui internado para aguardar uma doação de coração pois meu quadro clínico se deteriorava rapidamente. Quando cheguei, o quarto tinha dois leitos e uma janela lateral com vista para a Dr. Arnaldo, embelezada por um muro branco e o cemitério do Araçá, e à direita dava para ver os prédios da Paulista.

Fui até a janela e pude ver, do alto do 7º andar do hospital, como os espaços aéreos eram mal utilizados naquele complexo hospitalar. Pequenas edificações poderiam acomodar hortas orgânicas com facilidade em seus tetos, verdadeiras áreas verdes que dali aflorariam como as grandes fazendas urbanas de Portland, nos Estados Unidos.

Tenho certeza que não faltaria nem capital humano nem financeiro para isso. Daria para envolver pacientes, médicos, enfermeiros, ativistas e voluntários, que mexeriam com a terra. Empresas privadas poderiam ajudar o instituto a financiar a primeira produção local de alimentos orgânicos e aplicativos poderiam compartilhar a ideia. Teríamos ingredientes para compor um cardápio mais saudável e alimentar quem está lá doente.

Enquanto sonhava, fui transferido para a UTI. Precisava tomar uma medicação que só pode ser administrada com atenção médica 24 horas por dia. Com os remédios vieram as restrições: eu não poderia mais me mover, sair da cama, fazer nenhum esforço em função dos acessos com drogas que estavam sendo aplicadas na minha veia de forma contínua e de um balão intra-aórtico instalado.

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O novo espaço, no 4º andar, era um quartinho pequeno onde cabiam meu leito, os instrumentos de monitoração, um pequeno armário, uma TV e só. A vista do leito era a sala das enfermeiras. Um dia, descobri por acaso que havia uma janela atrás do meu leito e pedi à enfermeira para abrir a persiana para que eu pudesse receber a luz solar e pelo menos sentir que a vida nascia em algum lugar.

Peguei minha câmera do celular e consegui tirar uma foto. Foi então que eu descobri que aquela não era uma paisagem qualquer. Meu quarto dava para um bosque de pinheiros. Só que eu não podia virar para trás para vê-lo e tive que me contentar sentindo como seria o nascer e o pôr do sol ali, restabelecendo e apaziguando o ritmo na terra e fazendo com que a luz da manhã desse lugar a um lado mais sombrio do quarto à noite.

Era difícil entender, após quase dois meses internado na mesma UTI, que aquele espaço não era meu lugar, não me conectava com nada, mas também não era apenas um quarto de dormir. Ali não era um “não lugar”, era onde eu passava toda minha existência singular e momentânea, uma ocasião, a rigor, de vida ou morte. Mas eu estava apenas vendo a vida passar, olhando para uma parede e uma TV que ficava boa parte do tempo desligada.

Parecia que meu prazo de validade estava se esgotando e, mesmo assim, não queria perder tempo vendo TV. E o duro é que, não podendo receber visitas, tenho saudades da minha esposa, dos meus filhos, dos amigos… da minha vida. A relação com os enfermeiros, os médicos e a própria doença cria uma espécie de família impossível, disfuncional, mas ainda assim algo íntimo e baseado na confiança, no cuidado e na entrega.

Mas, se as instalações hospitalares são, a princípio, adequadas ao paciente, talvez falte um pouco de tato na hora de projetar as UTIs em si. O que percebo como quem está aqui internado é que os caminhos no hospital são tortuosos, a circulação é confusa, os fluxos são interrompidos, os elevadores distantes, as macas não são preparadas para receber tantas parafernálias, o ar-condicionado central não funciona direito, as janelas estão do lado errado… Enfim, nenhum local foi pensado para otimizar espaço e aliviar a vida dos pacientes.

Não por acaso, ainda em 2003, o governo federal lançou a Política Nacional de Humanização (PNH) para efetivar os princípios do SUS no cotidiano das práticas de atenção e gestão, qualificar melhor a saúde pública e observar com maior cuidado a implantação de uma ambiência adequada nos centros de saúde.

A ambiência leva em consideração a criação de espaços mais acolhedores que respeitam a privacidade e um projeto arquitetônico de acordo com as necessidades dos pacientes. Na prática, porém, nem sempre isso acontece: os espaços permanecem frios, impessoais, tediosos e nada inteligentes. Aqui, por exemplo, não tem biblioteca… não tem sequer um vaso de planta. E hoje fica fácil justificar: tudo culpa da Covid-19.

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem um laboratório de psicologia ambiental que mantém um curioso cruzamento entre as áreas de psicologia e arquitetura. Sua meta é entender e demonstrar como ambientes bem projetados impactam nosso estado mental e ajudam na recuperação de pacientes. A ambiência pode reduzir o estresse e a carga negativa para quem já enfrenta distúrbios psicológicos ou crises psicossociais, por exemplo.

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Essas questões foram abordadas no livro Ambientes Restauradores, organizado pelas pesquisadoras Bettieli Barboza da Silveira e Maíra Longhinotti Felippe. E hoje há milhares de publicações e artigos técnicos comprovando seus benefícios mundo afora. Porém, embora o assunto não seja novo, ainda está relegado ao ostracismo. Pequenas reformas já fariam jus ao lema de instituições como o InCor, baseadas em ciência e humanismo.

É preciso também escutar mais o paciente para entender a falta que faz uma janela, a entrada dos raios solares, uma poesia… E o incômodo causado por ruídos, certas cores e padrões. Mesmo em centros médicos de ponta, como este que é o maior local de estudos sobre o coração da América Latina, ainda falta transformar as habitações em ambientes mais propícios à interação humana.

A boa notícia é que dá para mudar. E eu lanço um desafio, enquanto aguardo um coração novo. Posso ajudar a pensar em uma nova UTI sob a visão do paciente. E, por que não, ainda servirei como voluntário nas hortas orgânicas no telhado do InCor. Topam, gestores?

* Lincoln Paiva é designer, especialista em planejamento de cidades e doutorando em arquitetura do Laboratório de Políticas Públicas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP)


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Bebê deve ser estimulado a segurar objetos desde o nascimento, diz estudo

Recém-nascidos e bebês de até três meses de idade já devem receber estímulos para manusear objetos e observar adultos desenvolvendo tarefas do dia a dia. Esse incentivo ajuda no desenvolvimento social, motor e cognitivo. É o que sugerem pesquisadores em artigo publicado na revista científica Infant Behavior & Development.

O estudo propõe que, desde o nascimento, os bebês assistam cotidianamente os adultos em suas atividades diárias, como, por exemplo, na manipulação de utensílios domésticos. Além disso, também devem ter contato frequente com objetos para que desenvolvam as habilidades de segurá-los e de estender os braços para alcançá-los.

Por meio dessas interações, os bebês conseguem, desde os primeiros dias de vida, aprender a usar o próprio corpo de maneira funcional e a perceber as relações entre seus movimentos e as consequências no ambiente.

“Apresentamos evidências de que as atividades de imitação e manipulação neonatal estão conectadas e propomos práticas de estimulação baseadas em desenhos experimentais, nas quais os bebês devem ser posicionados de maneira favorável a observar as ações das pessoas. Isso terá impacto na forma como entendem o mundo social e a cadeia de ações possíveis nesse ambiente”, escrevem os pesquisadores no artigo Interweaving social and manipulative development in early infancy: Some direction for infant caregiving. O trabalho teve apoio da Fapesp no âmbito de convênio com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV).

A pesquisadora Priscilla Ferronato, do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Paulista (Unip), primeira autora do trabalho, afirma que o estudo estabelece ligação entre os sistemas social de imitação e o motor de ação manipulativa. “As pesquisas têm demonstrado, desde os anos 1970, que os bebês conseguem copiar expressões faciais logo que nascem. Sugerimos que eles imitam tudo, tanto as expressões como as ações motoras de manipular objetos. Ao ver o adulto usando as mãos, eles copiam e aprendem a usá-las”, disse.

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Ferronato explica que, nos primeiros três meses de vida, os bebês, em geral, não conseguem fazer sozinhos movimentos para alcançar objetos. “Os cuidadores normalmente estimulam o uso das mãos a partir do momento em que os bebês aprendem o movimento de alcançar objetos. Nossa proposta é o contrário: incentivar no período em que eles ainda não conseguem”, disse.

No artigo, os pesquisadores fizeram uma revisão de estudos e perspectivas teóricas e apresentaram a nova abordagem como alternativa para compreender a imitação e as atividades manuais.

As sugestões estão baseadas na reprodução de cenários simples e de fácil adaptação, que replicam situações experimentais de estudos clássicos do desenvolvimento infantil.

Um dos exercícios propostos é o de colocar nas mãos da criança um objeto com textura lisa. Em seguida, acrescentar rugosidade à superfície para que ela sinta a diferença na forma de agarrar. Outra sugestão é oferecer um dedo para o bebê segurar e, quando ele conseguir, sorrir para que haja a associação do toque com o estímulo visual.

Ofereça o dedo e sorria quando o bebê segurá-lo.Foto: Nathan Dumlao/Unsplash/Getty Images

Mais uma atividade proposta é, em um ambiente com baixa luminosidade, colocar um feixe de luz (com uma lanterna ou o celular) atravessando horizontalmente o bebê na altura do peito para que ele tente controlar os braços ao buscar o feixe de luz.

“O nosso objetivo final é levar essas informações não só a professores de creche para aplicação prática, mas também aos pais, já que, geralmente, os bebês estão em casa nesse período. A maioria dos pais não tem ideia de que os bebês são capazes de aprender logo nos primeiros meses de vida”, disse Ferronato.

Na pesquisa Primeiríssima Infância – Interações: Comportamentos de pais e cuidadores de crianças de 0 a 3 anos, publicada em 2020 pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 21% dos pais entrevistados disseram que as crianças começam a aprender a partir dos seis meses de idade, e outros 21%, de um ano em diante. Dos 58% que responderam que os bebês aprendem ainda no útero ou logo após nascer, a maioria tem ensino superior e renda mais alta.

Desenvolvendo habilidades

No Brasil, a Lei 13.257/2016 define a primeira infância como o período que abrange os primeiros seis anos completos da criança. Mas pesquisadores e entidades já utilizam o que chamam de “primeiríssima infância”, até os três anos. Nessa faixa etária, estão cerca de 10 milhões de crianças no país, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2019.

Ainda antes desse período, os primeiros mil dias de um bebê (da gravidez até os dois anos) são considerados os mais importantes do desenvolvimento físico e mental do ser humano, podendo determinar inúmeros fatores da vida adulta. Conhecido como “intervalo de ouro”, é também marcado pela grande plasticidade cerebral, sendo muito favorável para situações de aprendizagem.

Em fevereiro, a Fapesp lançou o Centro Brasileiro para o Desenvolvimento na Primeira Infância, em parceria com a FMCSV e com sede no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo.

Entre os seus objetivos estão a realização de pesquisa na área de mensuração do desenvolvimento da primeira infância (DPI) e a integração de dados de DPI registrados por diferentes fontes, além de oferecer cursos e oficinas.

*Esse conteúdo foi publicado originalmente na Agência Fapesp.


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Estudo confirma que arte em caverna espanhola foi feita por neandertais

Em 2018, um grupo de pesquisadores divulgou o que parecia ser a prova de que neandertais, assim como os humanos, tinham o costume de realizar intervenções artísticas em cavernas. A descoberta colocava em xeque as suposições anteriores feitas por pesquisadores, que consideravam o primo do Homo sapiens uma espécie rudimentar. 

Nem todos engoliram a história logo de cara. Alguns cientistas defenderam que aquelas marcações encontradas na caverna de Ardales, em Málaga, eram, na verdade, manchas causadas por processos naturais. Mas, nesta segunda-feira (02), pesquisadores da Universidade de Barcelona, na Espanha, confirmaram que os pigmentos vistos nas rochas eram provenientes de uma fonte externa, comprovando o envolvimento de neandertais. O estudo completo foi publicado na revista científica PNAS.

De acordo com a datação realizada por pesquisadores, a intervenção tem, no mínimo, 64,8 mil anos. Dessa forma, também não há possibilidade de as marcações terem sido feitas por humanos modernos, que só chegaram ao continente europeu cerca de 20 mil anos depois. O pigmento avermelhado, que chegou a ser descrito por alguns cientistas como a ferrugem causada pelo gotejamento d’água, era, na realidade, ocre (corante natural retirado da argila).

As manchas foram feitas sobre os estalagmites da caverna, um tipo de formação rochosa estruturada a partir de minerais trazidos pelo gotejamento e depositados no chão. Os pesquisadores acreditam que os neandertais mastigaram o pigmento e expeliram nas pedras. A espécie pode ter cuspido o pigmento diretamente pela boca ou com auxílio de um osso, utilizado como canudo.

A palavra arte, usada para descrever as marcações, não deve ser levada ao pé da letra. As manchas vistas na caverna espanhola não são como os desenhos feitos pelos humanos modernos, mas parecem marcar um espaço simbolicamente importante para os neandertais. Uma datação mais detalhada reforça esta ideia: ela indica que a caverna foi pintada em duas épocas diferentes, com intervalo de 10 mil anos entre as intervenções, levando a crer que a cúpula de estalagmite era significativa para a espécie. 

Por muito tempo, pinturas e outros artefatos antigos tiveram suas criações atribuídas aos Homo sapiens. Os métodos de datação evoluíram e, agora, é possível reconhecer os diferentes feitos de neandertais. Com o avanço científico, a ideia de que esses antigos hominídeos eram apenas os primos brutos dos humanos modernos vão ficando para trás, desconstruindo estereótipos já ultrapassados.


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Teste do pezinho ampliado é avanço, mas falta incorporar remédios no SUS

Em 2021, foi sancionado o projeto de lei que amplia o número de doenças detectadas pelo teste do pezinho no SUS. O exame pode identificar mais de 50 doenças raras, que afetam o desenvolvimento neurológico, físico e motor. No Brasil, estima-se que 13 milhões de pessoas tenham alguma doença desse tipo, sendo 75% delas crianças. Por isso, identificar rápido e utilizar os tratamentos adequados desde o início é essencial para manter a qualidade de vida dos pequenos.

A ampliação do teste do pezinho ajudará diversas crianças na detecção e no controle dessas doenças, só que o SUS nem sempre oferece o tratamento para todas as enfermidades contempladas. Um exemplo é a fenilcetonúria, ou PKU, caracterizada pela ausência da enzima responsável pelo processamento do aminoácido fenilalanina. Devido a essa carência, com o consumo de proteínas ocorre um acúmulo da substância, num processo tóxico ao sistema nervoso que pode gerar lesões permanentes.

Assim, pacientes com PKU necessitam fazer restrições dietéticas, evitando o consumo de alimentos que contenham algum teor proteico. E, embora a fenilcetonúria esteja contemplada no teste do pezinho há mais de 20 anos, o tratamento é o mesmo de três décadas atrás.

Recentemente, a Conitec analisou o pedido de utilização de uma medicação, o dicloridrato de sapropterina, para pacientes com fenilcetonúria acima de 5 anos. Esse medicamento controla a doença em quase 30% dos casos e evita o comprometimento de funções executivas e cognitivas nos pacientes tratados via restrição dietética — no fundo, a única terapia existente no país.

O uso do fármaco também pode ajudar a regredir o déficit de atenção, a estabilizar as alterações de humor e a reduzir os quadros de depressão, além de facilitar a restrição alimentar, gerando vários impactos na qualidade de vida. O tratamento foi disponibilizado em 2018 no SUS, porém apenas para mulheres grávidas com PKU.

+ Leia também: Os desafios de uma doença rara, a fenilcetonúria

A submissão da sapropterina na Conitec recebeu parecer negativo para a incorporação na rede pública de uma forma mais ampla, sendo esse resultado contraintuitivo, pois, quando se descobre uma doença, o tratamento é o primeiro passo, sendo incoerente disponibilizar um diagnóstico sem um recurso terapêutico eficiente.

A justificativa para a negativa se deu pela falta de estudos e o custo elevado da medicação. Mas, como se trata de uma enfermidade rara, as pesquisas clínicas costumam envolver populações pequenas, sendo muito difícil ter um grande volume de evidências como em doenças crônicas prevalentes, a exemplo de câncer ou diabetes.

O direito ao teste do pezinho ampliado foi uma vitória que irá beneficiar muitas crianças. No entanto, devemos lembrar que outro problema a considerar é a falta do kit diagnóstico para o exame: em alguns estados brasileiros, os resultados são liberados muito além dos 30 dias de vida, período em que já pode haver danos neurológicos ao bebê.

De qualquer forma, se agora teremos a possibilidade de diagnosticar precocemente mais doenças genéticas em recém-nascidos, precisamos também garantir o acesso ao devido tratamento. Afinal, de que adiantar saber, mas não poder controlar?

* Simone Arede é diretora da Associação Mães Metabólicas


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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Cestas de frutas de 2,5 mil anos encontradas em cidade egípcia submersa

As ruínas submersas da cidade de Heracleion, no litoral mediterrâneo do Egito, foram descobertas 20 anos atrás. Desde então, artefatos arqueológicos não param de aparecer. A última descoberta são cestas de vime cheias de frutas que datam do século 4 a.C.

Sim, você leu certo: as frutas ainda estão lá – ainda que não particularmente comestíveis. As cestas permaneceram intocadas há 2,5 mil anos e estavam cheias de doum – o fruto de uma palmeira nativa do continente africano considerada sagrada pelos antigos egípcios. Também havia sementes de uva.

Os pesquisadores do Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática, liderados pelo arqueólogo francês Franck Goddio, ficaram impressionados com a descoberta. Goddio afirmou ao jornal britânico The Guardian que uma possível explicação para a preservação das cestas é que elas estavam dentro de uma sala subterrânea – o que pode indicar que os objetos foram usados em um contexto funerário.

“Pode indicar” é só um jeito cauteloso de dizer: perto das cestas, havia um grande túmulo, com cerca de 60 m de comprimento e 8 m de largura. Os pesquisadores também encontraram uma série de oferendas funerárias gregas por lá, estatuetas de Osíris (antigo deus egípcio da fertilidade), espelhos e artefatos de bronze e cerâmica. Nenhum desses itens era posterior ao início do século 4 a.C.

Goddio afirma que também há evidências de incêndio no túmulo. Isso sugere que, no século 4 a.C., ocorreu uma cerimônia que impediu a entrada posterior na sala. “Esse lugar foi usado talvez uma vez e nunca tocado depois, por um motivo que não conseguimos entender por enquanto”.

A cidade de Thonis-Heracleion

Thonis-Heracleion – respectivamente o nome egípcio e o nome grego do mesmo lugar – foi uma grande cidade na costa do Egito. Pesquisadores acreditam que, durante séculos, a cidade foi o grande porto do Egito – e só perdeu o posto depois que Alexandre, o Grande, fundou a cidade de Alexandria ali por perto, em cerca de 331 a.C.

Os gregos se estabeleceram por lá durante o final do período faraônico. No século 4 a.C. – época das cestas de frutas encontradas recentemente –, a cidade era habitada por mercadores e mercenários de origem helênica.

Localizada na baía de Abu Qir, no delta do rio Nilo, Heracleion foi parar nas profundezas do Mar Mediterrâneo no século 7, depois de uma subida gradual do nível do mar e do colapso do solo instável da cidade, segundo uma das hipóteses propostas pelos cientistas.

A cidade ficou submersa por séculos e só foi descoberta pelo arqueólogo Franck Goddio em 2000. De lá pra cá, pesquisadores mergulham na região para vasculhar as ruínas de Heracleion – e eventualmente fazem descobertas incríveis como essas.

Arqueólogos vasculham as ruínas da cidade submersa de Thonis-Heracleion desde sua descoberta, em 2000.Franck Goddio/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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