segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A trajetória da pílula anticoncepcional no seu aniversário de 60 anos

Os anos 1960 costumam ser evocados como uma época de profundas mudanças sociais e culturais no Ocidente. Entre hippies, minissaias,
sons dos Beatles e manifestos por mais liberdade política, poucas coisas deixaram uma marca tão duradoura quanto o que ficou conhecido como revolução sexual. Uma transformação de ideais e comportamentos só possibilitada por uma invenção que completa 60 anos de Brasil, a pílula anticoncepcional.

Quando aterrissou por aqui, ela já era um sucesso absoluto lá fora. Os Estados Unidos começaram a vender as primeiras pílulas cinco anos mais cedo, inicialmente para conter transtornos menstruais mais severos, mas já advertindo, na bula, que o medicamento teria o efeito colateral de impedir uma gestação.

Pouco depois, veio a autorização das autoridades sanitárias para que fosse vendido com esse objetivo explícito. Em 1962, quando a medicação à base de hormônios chegou às farmácias brasileiras, calcula-se que 1 milhão de americanas já a tomassem regularmente.

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Para a médica Ilza Maria Monteiro, vice-presidente da Comissão Nacional de Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o advento da pílula foi um divisor de águas. “Antes, as mulheres ficavam sob risco de uma gravidez não planejada e sem ferramentas para se proteger”, observa a ginecologista.

Com o contraceptivo oral de uso diário, tudo mudou: a mulher passou a ter mais controle sobre o próprio corpo e sua vida sexual. Agora podia adiar o momento de ter filhos, sem deixar que a maternidade dificultasse a entrada na faculdade ou no mercado de trabalho. Adeus, cuidados exclusivos com a casa e as crianças!

<span class="hidden">–</span>ilustração: Camila Gray/SAÚDE é Vital

No Brasil de hoje, a facilidade no uso e no acesso à pílula, que não requer receita médica, faz com que ela siga liderando a preferência entre os métodos contraceptivos. Ainda que dados oficiais estejam defasados, uma pesquisa do Instituto Ipsos de 2021 apontou que 58% das brasileiras entrevistadas utilizavam a pílula, ante 8% do DIU de cobre.

Com tanta liberdade e opção disponível na drogaria, contudo, os especialistas alertam que escolher e tomar a pílula é uma atitude que demanda informação e responsabilidade. Existem melhores indicações caso a caso, bem como riscos e efeitos colaterais a considerar.

“As mulheres não precisam passar por consulta médica para comprar a pílula, mas é recomendado que o façam. Nem sempre o que a vizinha toma é o melhor para você”, afirma a ginecologista Fernanda Fraga, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Isso porque não se fala mais em pílula, assim no singular. Há inúmeros tipos vendidos nas farmácias e, às vezes, prevenir uma gravidez nem é o motivo número 1 da compra. Tem gente que quer suspender a menstruação, com as versões de uso contínuo, ou aposte em certas combinações hormonais para controlar os sintomas dos ovários policísticos, por exemplo.

Na outra ponta, mulheres que buscam a pílula para não engravidar e temem, devido ao histórico de saúde, uma propensão à trombose hoje podem adotar contraceptivos sem estrogênio — que não iriam resolver uma queixa de cólicas menstruais frequentes.

+ Leia também: Pílula e trombose: qual a relação?

Passados 60 anos, a família dos anticoncepcionais cresceu, e conhecê-la, assim como se autoconhecer, é a melhor forma de acertar na escolha. Em sua versão clássica, a pílula se vale de uma combinação sintética de dois hormônios, originalmente fabricados pelo corpo: o estrogênio e a progesterona.

Embora o efeito contraceptivo possa ser obtido apenas com o segundo, é o estrogênio que torna o sangramento menstrual previsível. O problema é que, dependendo da dosagem, ele também pode levar a desequilíbrios no organismo caso a mulher tenha alguma suscetibilidade.

O maior perigo envolve trombose e ataques cardíacos. Após a euforia inicial com a pílula, os primeiros relatos dessas complicações causaram tanto pânico que o Congresso americano chegou a montar uma comissão para investigar o assunto.

O que pesa na escolha

Sob pressão de grupos religiosos, que viram no momento uma chance de dar um basta ao sexo sem procriação, políticos tentaram até proibi-la em 1970. Nesse contexto, as vendas caíram 20%.

A resposta da indústria farmacêutica, no entanto, foi investir no desenvolvimento de novas gerações do anticoncepcional, reduzindo esses riscos. “A primeira pílula continha doses maiores de hormônios do que utilizamos atualmente. Nessa evolução, ganhamos segurança sem perder a eficácia”, afirma o ginecologista e obstetra Edson Ferreira, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

“Muitas das preocupações para a saúde de quem usa hormônios foram reduzidas com pesquisa científica de boa qualidade”, completa. A principal mudança foi uma redução drástica nos níveis de estrogênio: hoje, as versões encontradas nas farmácias têm dosagens variadas, mas que ficam entre 20 e 50% da quantidade utilizada nos anticoncepcionais precursores.

+ Leia também: Anticoncepcional em avaliação pela Anvisa reduziria risco de trombose

Com o tempo, também surgiram as pílulas tomadas por fase do ciclo menstrual: a dose de hormônios se alterna ao longo da cartela, de acordo com o período do mês. E, finalmente, chegaram aquelas que abrem mão completamente do estrogênio, formuladas apenas com a substância que imita a progesterona.

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“Hoje existe uma tabela gigante que fala das características de cada uma dessas medicações. Se a pessoa tem muita acne, é preferível uma combinação que responde melhor a isso. Se é uma pessoa com propensão a inchaços, é melhor outra que ajude a não reter tanto líquido”, exemplifica Fernanda.

Idade, uso em paralelo a alguns remédios, amamentação, histórico de tabagismo, trombose ou enxaqueca são alguns dos fatores pesados pelos especialistas antes de indicar a melhor fórmula — ou a troca da pílula por outro método contraceptivo.

A boa notícia é que os médicos e as pacientes não estão sozinhos na hora de traçar a melhor decisão. A Organização Mundial da Saúde (OMS) disponibiliza uma série de critérios e até um aplicativo para determinar o caminho mais indicado à mulher.

“É a paciente que escolhe o método a que vai aderir. Nossa missão é apresentar a ela tudo o que existe e está disponível no país”, diz a professora da PUC-PR. E alertar caso existam contraindicações específicas.

<span class="hidden">–</span>ilustração: Camila Gray/SAÚDE é Vital

A pílula, com a licença poética do singular, hoje está mais segura, diversificada e abrangente. E se torna uma alternativa inclusive para a comunidade LGBTQIA+.

“Quem fala se tem necessidade ou não de proteção contra gravidez é a própria pessoa. Além disso, alguns métodos podem ser utilizados não somente com a finalidade de prevenir uma gestação mas também no tratamento de condições ginecológicas”, explica Ferreira.

Dentro dessa linha de raciocínio apresentada pelo médico da USP, a pílula combinada pode entrar em cena para melhorar casos de incômodos menstruais, acne ou hirsutismo, o excesso de pelos que, às vezes, surge em decorrência da síndrome dos ovários policísticos.

Mesmo homens trans que estejam fazendo um tratamento hormonal podem buscar a pílula — o que importa é a análise do estado e do histórico de saúde de cada um. Com os anos, o leque de opções se abriu e vai além dos anticoncepcionais orais.

Para quem não pretende engravidar tão cedo e não quer se preocupar em tomar remédio todo dia, o DIU (hormonal ou não) é uma eventual saída. Ele tem a vantagem de driblar uma das maiores razões para a falha da pílula: esquecer de ingeri-la.

Alguns especialistas defendem que métodos de longa duração, caso do DIU, deveriam ser mais encorajados no Brasil, onde o atendimento ginecológico nem sempre é acessível e o índice de gravidez não planejada é elevado. “A melhor forma de evitar isso é ofertar todos os métodos, mas principalmente aumentar a taxa de uso daqueles de longa ação”, avalia Ilza.

Por falta de informação, descuido ou má adesão à pílula, o fato é que mais da metade das gestações no país não é programada. Para entender o que passa pela cabeça das usuárias de contraceptivos, Ferreira conta que um estudo americano perguntou às mulheres quais os atributos mais importantes de um anticoncepcional.

+ Leia também: As principais dúvidas sobre a pílula anticoncepcional

“A resposta não surpreende: efetividade, segurança, pouco ou nenhum efeito adverso. Isso vale tanto para mulheres cis e heterossexuais quanto para qualquer outra pessoa”, relata o ginecologista.

E, a despeito do cenário e das particularidades individuais, os médicos batem na tecla de que nenhum comprimido ou DIU previnem doenças sexualmente transmissíveis — só os preservativos são capazes de barrá-las.

Também não tenha a ilusão de que o 60º aniversário da pílula represente o fim dos avanços científicos na área e das novidades por aí. Estão chegando ao mercado brasileiro as primeiras medicações à base de drospirenona de 4 miligramas, uma versão sintética da progesterona que vem ganhando espaço.

“São pílulas que não aumentam risco de trombose, têm um efeito diurético interessante contra o inchaço e um melhor controle da menstruação”, resume a médica da Febrasgo.

Para quem prefere as versões combinadas, fórmulas já mesclam a drospirenona com o estetrol E4,que simularia mais naturalmente o efeito do
estrogênio no corpo, ampliando a segurança no uso.

Em suma: a lista de opções cresce, mas a escolha tem de ser individual e bem informada. “O mais importante é o conhecimento, ainda mais para quebrar a ‘hormoniofobia’, esse medo de que hormônios vão necessariamente fazer mal.

As pessoas precisam entender as coisas como elas são para optar por algo que supra suas necessidades”, diz Ilza. É assim que se tira proveito dessa sessentona revolucionária.

<span class="hidden">–</span>ilustração: Camila Gray/SAÚDE é Vital
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Abelhas brincam com bolas de madeira em experimento

Você e seu cachorro não são os únicos que gostam de jogar bola. Até as abelhas podem brincar, segundo um estudo publicado na revista Animal Behaviour. Em um conjunto de experimentos, os insetos rolaram bolas de madeira para lá e para cá, até 117 vezes, sem ganhar nenhuma recompensa por isso.

Muitos animais parecem interagir com objetos só por diversão, mas os cientistas geralmente observam esse comportamento entre mamíferos e pássaros jovens. Esse é o primeiro estudo que verifica o fenômeno entre insetos. E com um detalhe interessante: a brincadeira era mais comum entre os indivíduos mais novos.

“Esta pesquisa fornece uma forte indicação de que as mentes dos insetos são muito mais sofisticadas do que podemos imaginar”, afirma Lars Chittka, professor da Queen Mary University of London (QMUL, Inglaterra) e autor do novo livro The Mind of a Bee (“A mente de uma abelha”, não lançado no Brasil).

Lars é o chefe do laboratório em que os experimentos aconteceram. Além de pesquisadores da QMUL, também participaram do estudo cientistas das universidades de Sheffield (Inglaterra) e Oulu (Finlândia). Eles observaram 45 abelhas da espécie Bombus terrestris, que têm de 1,5 a 2,5 centímetros de comprimento.

Como foi o estudo

Primeiro, os cientistas montaram um ambiente de três câmaras interligadas, entre as quais as abelhas podiam circular livremente. A primeira câmara não tinha nada de mais: era o lugar onde os cientistas deixavam as abelhas de início. Na segunda, havia bolas de madeira; na terceira, recipientes com sacarose e pólen.

Durante 18 dias, os pesquisadores observaram o comportamento de 45 abelhas, que passavam três horas diárias nesse ambiente triplo. A ideia era a seguinte: se os insetos interagissem com as bolas repetidamente, isso indicaria que aquela atividade era mais atraente do que a área de comida grátis. As abelhas estariam se divertindo.

O resultado: a maioria das abelhas (37 de 45) interagiu com as bolas de madeira, como você pode ver no vídeo abaixo, depois de descobrir a câmara 3. Cada inseto empurrou os objetos de uma a 117 vezes, por até 31 segundos. E os mais novos (com 3 a 7 dias de vida) eram os mais dedicados à atividade.

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Em seguida, os pesquisadores dividiram outras quarenta e tantas abelhas em dois grupos. Dessa vez, a câmara 2 era amarela ou azul – cores que, acredita-se, as abelhas conseguem distinguir sem problemas. Para o primeiro grupo, a equipe colocava as bolas de madeira em uma câmara amarela – mas, de vez em quando, trocava-a com uma câmara azul, vazia. Para o segundo grupo, foi ao contrário.

Então, construiu-se um ambiente diferente, em que as abelhas podiam se locomover por um túnel até uma câmara amarela ou azul. Nenhuma tinha bolas de madeira nem sacarose – mas os insetos não sabiam disso, graças a uma série de barreiras no caminho. 

O resultado: as abelhas que antes aprenderam que uma câmara amarela continha as bolas seguiram essa cor na maior parte das vezes. A mesma coisa aconteceu com aquelas que associavam o azul ao objeto. Isso sugere que elas procuraram as bolas porque elas representavam uma atividade recompensadora.

A gente não quer só comida

Segundo os pesquisadores, há uma série de motivos para acreditar que as bolas de madeira representaram, sim, uma forma de entretenimento para as abelhas – às vezes, mais atraente que recompensas como sacarose e pólen.

Eles afirmam no estudo que as interações com as bolas eram voluntárias, espontâneas e não tinham uma função aparente – porque não estavam relacionadas ao fornecimento de comida, por exemplo. Essas interações também não teriam acontecido sob condições estressantes que alterariam o comportamento dos insetos.

“As abelhas podem realmente experimentar algum tipo de estado emocional positivo, mesmo que rudimentar [enquanto interagem com objetos como as bolas do experimento]”, afirma Samadi Galpayage, autora principal do estudo, em comunicado.

“Estamos produzindo cada vez mais evidências que apoiam a necessidade de proteger os insetos, que estão muito longe das criaturas irracionais e insensíveis que tradicionalmente se acredita que sejam”, afirma Lars Chittka.

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Treinar garante juventude, mas erros dão aspecto envelhecido ao rosto

Exercícios físicos fazem bem à saúde e rejuvenescem. Mas por que algumas pessoas percebem a aparência mais envelhecida após algum tempo fazendo atividade física regularmente? Existem algumas explicações.

A primeira delas é o overtraining (ou excesso de treinamento). Veja: quando fazemos exercício, geramos radicais livres, que são moléculas instáveis e prejudiciais ao organismo. Mas, ao mesmo tempo, a atividade física estimula a produção de antioxidantes, que nos defendem desses inimigos.

Agora, se o gasto de energia é alto demais, como no overtraining, há um aumento gigantesco da produção de radicais livres. E, sem defesa suficiente, ocorre o chamado estresse oxidativo. Essa situação danifica várias moléculas, entre elas o colágeno e a elastina, aumentando a flacidez e piorando a qualidade da pele.

Para garantir um equilíbrio, é necessário aumentar a carga de exercícios de forma gradativa. Descanso e dieta também são fundamentais.

Falando em dieta, a segunda explicação é o aporte ineficiente de calorias. Algumas pessoas percebem uma flacidez acentuada porque, quando emagrecemos, perdemos gordura no corpo inteiro – inclusive no rosto.

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Com a diminuição do volume facial, temos mais pele sobrando e a sensação de envelhecimento. Portanto, evite reduzir demais o aporte calórico.

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Ainda de olho na alimentação, o consumo insuficiente de proteínas também é capaz piorar o aspecto da pele. As necessidades diárias de desse nutriente variam de cerca de 1,0 a 2,5 gramas por quilo de peso por dia (esse valor mais alto costuma valer para atletas).

Sem esse aporte, o direcionamento de proteínas para a pele fica em último plano. Afinal de contas, quem precisa formar colágeno (que é uma proteína) quando precisa manter o corpo em movimento e funcionando, certo?

Para quem pratica exercício ao ar livre, a exposição ao sol sem filtro solar é outro fator preocupante, porque causa o que chamamos de fotoenvelhecimento cutâneo.

Isso porque os raios ultravioletas aumentam a produção dos tais radicais livres na pele, danificando as fibras de colágeno e elastina. Para escapar disso, é essencial usar o protetor antes das atividades físicas – se possível, repasse o produto a cada duas horas.

A hidratação também merece menção. Durante o exercício, eliminamos suor para regular a temperatura do corpo. Essa perda é elevada em caso de atividades muito intensas e pode ser ainda maior quando a temperatura ambiente está elevada e há baixa umidade do ar. Só que a falta de água faz a gente sentir a pele mais seca, e com rugas de expressão mais aparentes.

Para envelhecer bem, é necessário fazer exercícios físicos como rotina (para sempre), mas com aumento gradual de carga e duração, respeitando também o descanso; ter uma dieta equilibrada, com aporte calórico adequado e ingestão correta de proteína e de alimentos antioxidantes (ou seja, que são fontes de vitaminas e minerais); beber água para uma efetiva hidratação; e ter cuidados com a pele, apostando no filtro solar e em hidratantes.

Beatriz Lassance é cirurgiã plástica, membro do American College of LifeStyle Medicine e do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida

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Rápido e devagar: os paradoxos do tempo na medicina

Filmes, livros, séries, quadrinhos… Não faltam obras de ficção explorando o paradoxo temporal, com direito a personagens viajando pelo tempo para alterar fatos do passado a fim de modificar o futuro. Na realidade da atividade médica, o paradoxo temporal diz respeito aos minutos ou às horas que devemos dedicar ao paciente no presente para modificar seu futuro, ou seja, cuidar adequadamente do problema que o trouxe até nós e buscar remediá-lo ou minimizá-lo.

Nesse contexto, o que às vezes pode parecer gasto de tempo é, na verdade, um investimento. Investimento porque vai se refletir em ganhos na qualidade da assistência ao paciente e na melhor gestão do tempo do médico e da equipe de saúde, uma vez que informações úteis a um diagnóstico ou tratamento mais preciso foram captadas e as orientações pertinentes foram dadas no momento certo.

Porém, quando o profissional acha que está economizando tempo com uma consulta rápida e acredita que vai resolver tudo só pedindo exames incorre em dois pecados. Um é deixar de ouvir o paciente e investigar seus sintomas, fiando-se apenas nos resultados dos exames como guia para o diagnóstico ou o tratamento. O outro é o desperdício de recursos que impacta a sustentabilidade do sistema de saúde, inflando custos com exames desnecessários.

Aqui precisamos questionar: quantas doenças não podem ser diagnosticadas clinicamente? Não há ressonância magnética que aponte a causa de uma enxaqueca, por exemplo. Da mesma forma, nenhum exame laboratorial ou de imagem decifrará o gatilho de doenças que têm componentes psicossomáticos, como as gastrites e a síndrome do intestino irritável.

+ LEIA TAMBÉM: Outras colunas do doutor Sidney Klajner

Ouvir o paciente, explicar o diagnóstico e as opções de tratamento, exercitar a empatia para ajudar em suas dores (físicas e emocionais), orientá-lo e esclarecer dúvidas são aspectos que fazem parte do cuidado tanto quanto a aplicação objetiva dos conhecimentos técnicos do médico. Mas quanto tempo é preciso dedicar a isso? Respondo: o tempo adequado a cada caso.

Vou dar um exemplo simples, comum em meu consultório: o da cirurgia de hemorroida, que costuma atemorizar o paciente por causa do desconforto do pós-operatório. Se antes do procedimento ele já for informado de que poderá sentir dor, mas que irá para casa com um arsenal de medidas para lidar com ela — orientação para banho de assento e prescrição de laxantes, analgésicos, anti-inflamatórios ou mais uma medicação se tiver uma dor muito intensa —, tudo muda de figura.

O indivíduo se sentirá mais seguro por saber o que fazer e vai sentir menos dor, porque dor também depende de ansiedade. Com isso, o tempo “gasto” nas orientações prévias vira tempo ganho depois. Sem essas instruções, o paciente estaria ligando para se queixar da dor e pedindo ajuda, podendo até mesmo se deslocar até um hospital sem necessidade.

Há um estudo de pesquisadores do Beth Israel Deaconess Medical Center, nos Estados Unidos, com resultados bem curiosos. O trabalho envolveu pacientes com síndrome do intestino irritável, um distúrbio dos movimentos intestinais que provoca cólicas, prisão de ventre e/ou diarreia e é disparado por gatilhos emocionais. Não evolui para nenhuma condição mais grave, mas impacta a qualidade de vida.

Nessa pesquisa, os pacientes foram divididos aleatoriamente em grupos: um recebeu placebo (comprimido sem princípio ativo) e foi informado disso; outros dois receberam medicação ou pílulas de hortelã com formato igual à do remédio, sem saber quem estava tomando o quê. Adivinhe qual grupo apresentou melhora ao cabo de seis meses.

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Todos! A explicação mais plausível é que os voluntários em geral se beneficiaram das conversas regulares com os médicos nos retornos periódicos realizados durante o experimento.

Dedicar o tempo adequado ao relacionamento com o paciente tem a ver com a própria qualidade da formação médica, que precisa combinar o lado técnico e o humanístico. Com isso, o profissional saberá ajustar a janela necessária tanto para obter as informações relevantes para fazer o diagnóstico e propor o tratamento como para exercer seu papel de acolhimento. Essa relação, vale lembrar, inclui também os familiares.

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Alguns acreditam que a transformação digital diminuirá o tempo da consulta e que algoritmos tomarão decisões no lugar do médico. É uma visão equivocada.

Soluções tecnológicas ajudam a poupar tempo com aquilo que não agrega valor — por exemplo, facilitando o preenchimento do prontuário ou apresentando um gráfico com resultados de todos os exames do paciente ao longo dos anos, o que dispensa o trabalho de checar o histórico item por item. Os recursos digitais liberam tempo para o médico cuidar do paciente utilizando aquilo que realmente faz diferença: suas competências técnicas, bem como sua empatia e sensibilidade.

Eu costumo dizer que metade do tratamento é a atenção que dedicamos ao paciente (e familiares); o restante é a aplicação do conhecimento técnico. A transformação digital ajuda a ganhar tempo para nos dedicarmos a essas duas metades que, somadas, permitem fazer o atendimento como ele deve ser.

Urgências e tomadas rápidas de decisão fazem parte do dia a dia de médicos e cirurgiões. Mas, no relacionamento com o paciente e seu entorno, o ritmo não pode seguir acelerado.

Precisamos de tempo para interagir, examinar e dar apoio. Cabe ao médico, que abraçou essa carreira tão direcionada ao cuidado com o outro, dispor de tempo para isso. E cabe ao paciente exigir do médico esse tempo.

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domingo, 30 de outubro de 2022

Precisamos ampliar a diversidade entre os doadores de medula óssea

No último dia 17 de setembro, celebramos o Dia Mundial do Doador de Medula Óssea, data criada com o objetivo de conscientizar sobre a importância da doação. É também uma boa oportunidade de reflexão sobre os desafios enfrentados pelos pacientes que aguardam a sua vez na fila para realização do transplante, indicado no caso de diversas doenças que afetam as células do sangue, como leucemia, linfomas, mieloma múltiplo, aplasia de medula e outras deficiências¹.

A medula óssea é o lugar onde são produzidos os componentes do sangue: hemácias (glóbulos vermelhos), leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas. Em doenças como as leucemias e linfomas, um dos tratamentos indicados consiste na substituição da medula óssea doente, por células normais de medula óssea, que ajudarão a reconstituir uma medula saudável.

Mas, para que esse procedimento seja bem-sucedido, uma das chaves é a compatibilidade genética entre o doador e o paciente.

As chances de um indivíduo encontrar um doador ideal no núcleo familiar, sendo entre irmãos com mesmo pai e mesma mãe, é de 25%. Entretanto, quando não existe a possibilidade de doador na família, é necessário encontrar um não aparentado, o que faz com que as chances de compatibilidade caiam para 1 em 100 mil, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

+ LEIA TAMBÉM: Leucemia: o que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

No Brasil, existem mais de 5,5 milhões de doadores cadastrados no REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), coordenado pelo INCA. No entanto, mais de 650 pacientes aguardam na fila por um doador sem parentesco familiar.

O cenário nos mostra que, quanto mais doadores cadastrados, maior a chance de que a compatibilidade entre doadores e pacientes seja identificada.

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No Brasil, a situação é agravada pela nossa imensa diversidade genética. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional do Câncer (INCA), mostrou que, para indivíduos com ancestrais africanos, a chance de achar amostras compatíveis é até 75% menor comparado a pacientes com outro componente genético.

Isso é explicado pela grande variabilidade do DNA de indivíduos de origem africana, superior ao resto do mundo. Além disso, dos mais de 5 milhões de cadastrados no REDOME, apenas 397 mil voluntários que se autodeclararam pretos, comparado a 1,7 milhões de pessoas autodeclaradas pardas e 2,9 milhões de brancas, o que dificulta ainda mais a identificação de um doador compatível.

Para mudar esse cenário, é muito importante termos mais pessoas pretas e pardas como doadoras voluntárias de medula.

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Para se tornar um doador, o candidato deve procurar um hemocentro do seu estado, ter entre 18 e 35 anos de idade e estar em boas condições de saúde.

A partir daí, é solicitado o preenchimento de um termo de consentimento livre e esclarecido, e uma ficha com informações pessoais. Após esse processo, é retirada uma pequena quantidade de sangue (10 ml) do candidato a doador, para análise de compatibilidade e inclusão no banco de dados do REDOME. Caso haja um paciente compatível, outros procedimentos são realizados para viabilizar a doação.

Em um país como o Brasil, em que autodeclarados pretos e pardos respondem por mais de 56% da população, aumentar o número de doadores significa também contemplar toda a diversidade genética brasileira, e trazer novas perspectivas aos pacientes que aguardam um doador compatível para seguir o seu tratamento.

*Carmen Vergueiro é hematologista e coordenadora da Associação da Medula Óssea do Estado de São Paulo (AMEO).

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sábado, 29 de outubro de 2022

Dia Nacional do Livro: obras que colocam a saúde no centro do debate

A leitura, em si, já é uma atividade que traz impactos positivos na saúde. Em coluna no site da Veja SAÚDE, a escritora e biblioterapeuta Carolina Ruhman Sandler comenta que “a literatura nos ajuda a compreender melhor o mundo e nós mesmos, o que pode ter efeitos terapêuticos”.

Se ler já é positivo, imagine se debruçar sobre obras que envolvem a temática da ciência e saúde e, dessa maneira, nos ajudam a refletir sobre comportamentos, hábitos de vida ou momentos decisivos na história da humanidade. Títulos desse tipo aparecem em nossas páginas e nosso site com frequência.

Aproveitando que hoje é Dia Nacional do Livro, selecionamos alguns deles para te inspirar a colocar a leitura (e a saúde) em dia.

Memória: A Ciência da Lembrança e a Arte do Esquecimento (HarperCollins)

A obra disseca a formação e o funcionamento da memória. De forma extremamente didática, a autora expõe os circuitos cerebrais que captam e consolidam as lembranças e os fatores que interferem na capacidade de reter (ou não) informações.

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A Vida dos Estoicos (Intrínseca)

Resiliência, autocontrole e caráter estão na base do pensamento estoico. Livro traz o perfil de 26 pensadores dessa corrente (uma mulher no meio), do precursor Zenão ao imperador-filósofo Marco Aurélio.

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Um Tempo Para Não Esquecer (Editora Bazar do Tempo)

O livro reúne 81 crônicas da pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, que foram publicadas entre abril de 2020 e novembro de 2021 no jornal carioca O Globo, no auge da pandemia do coronavírus.

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Por Que Olhar para os Animais? (Editora Fósforo)

Ressignificamos a relação e o contato com eles por meio de zoológicos, bichos de pelúcia e, mais recentemente, produções para TV e pets. Os textos reunidos na obra têm, como pano de fundo, a mudança de nosso relacionamento com o reino animal.

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TAB: Transtorno Afetivo Bipolar – Memórias (Somos Livros)

A autora não só é uma psicoterapeuta que há décadas estuda e trata a condição como foi diagnosticada com ela na juventude. Na obra, relata suas memórias e pontos de vista sobre a doença.

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A Arte de Pegar Leve (Editora Latitude)

O bom humor deve ser encarado como uma ferramenta preventiva e terapêutica para o nosso bem-estar mental. É essa a tese que o autor propõe no livro, em meio a estudos científicos, causos, conselhos e piadas.

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Imperfeitos (Maquinaria Editorial)

Assistente de marketing com transtorno do espectro autista conta em livro como superou desafios e preconceitos e se inseriu no mercado de trabalho.

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A Vacina (Intrínseca)

A obra acompanha, com detalhes e bastidores, o desenvolvimento em tempo recorde (mas sem pular etapas) da vacina da Pfizer contra o coronavírus, que ajudou a salvar milhões de vidas e revolucionou a ciência.

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Veganismo Descomplicado (Academia)

O livro desmitifica e simplifica a rotina de quem quer aderir a uma alimentação e a um estilo de vida sem ingredientes de origem animal. A autora é Luísa Motta, dona do canal no YouTube Larica Vegana, que tem quase meio milhão de inscritos.

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Pais Saudáveis = Filhos Saudáveis (Editora Gente)

Obra de casal de médicos se baseia em metodologia em quatro passos para crianças se desenvolverem com saúde física e mental.

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Sentir & Saber (Companhia das Letras)

Na obra, neurologista condensa sua visão e conhecimento sobre a evolução do sistema nervoso animal e o modus operandi da mente humana.

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História da Saúde Humana (Contexto)

Obra de médico francês explica fenômenos que concorreram a favor das doenças infecciosas e dos problemas crônicos não transmissíveis.

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*As vendas por meio desse link podem render algum tipo de remuneração para a Editora Abril.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Foto do “rosto” de formiga vence prêmio de macrofotografia

A imagem que ilustra este texto foi homenageada recebeu uma menção honrosa do Concurso de Fotomicrografia Small World 2022, organizado pela fabricante de câmeras Nikon. Essa aparente monstruosidade é, na verdade, um ultra-close da cara de uma formiga.

Para chegar nesse resultado, o fotógrafo lituano Eugenijus Kavaliauskas capturou a imagem através de um microscópio com ampliação de 5x. Ele usou uma técnica de luz refletida, em que, ao invés de iluminar diretamente o que será fotografado, foca-se a luz em outra superfície, e é a reflexão dela que ilumina o objeto – ou, no caso, a formiga. Essa técnica foi usada para trazer mais detalhes para o rosto do inseto.

A foto é uma aproximação das mandíbulas e antenas de uma formiga Camponotus – uma formiga comum. À primeira vista ela pode assustar, mas alguns de seus aspectos não são o que parecem. Por exemplo, as partes superiores, que parecem grandes olhos vermelhos são, na verdade, as bases de suas antenas; e o que se assemelha a dentes amarelos são pelos muito pequenos que as formigas usam para sentir o ambiente ao redor.

Outras 56 fotos também receberam a menção honrosa – são imagens de besouros, fungos, aranhas e plânctons, que você pode ver no site do concurso.

<span class="hidden">–</span>Nikon/Reprodução

O primeiro lugar do prêmio foi para uma foto, acima, que mostra a mão do embrião de uma lagartixa gigante de Madagascar (Phelsuma grandis). Seus fotógrafos foram Grigorii Timin e Michel Milinkovitch, da Universidade de Genebra, na Suíça.

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“Estamos pensando de maneira muito linear no tratamento do câncer”

Como mostramos na nossa reportagem de capa do mês de outubro, o tratamento do câncer está passando por uma verdadeira revolução. 

Anticorpos conjugados a droga, CAR-T e novas imunoterapias deram esperança a casos complicados, mas os motivos que fazem uma pessoa não responder ao tratamento ou o tumor voltar ainda são um mistério. 

Para responder questões como essas, nos próximos anos deve crescer o uso da inteligência artificial e outras tecnologias que ajudam a analisar mais profundamente as características genéticas dos tumores e dos pacientes. 

+ Leia tambémInteligência artificial: ela está no meio de nós

Como complemento à matéria que está nas bancas, conversamos com dois pesquisadores de destaque nesse campo, os israelenses Shai Rosenberg e Aron Popotzer, ambos do hospital Hadassah, em Israel, que passaram pelo Brasil na última semana. 

Rosenberg e sua equipe foram os primeiros a desenvolver com sucesso um algoritmo que detecta mutações que causam câncer. A partir de um gene específico, o P53, ligado a muitos tumores, o programa mostrou uma precisão de mais de 95% em descobrir se as variantes de significado incerto são ou não perigosas. 

Na conversa, ele explica sua pesquisa e discute as próximas fronteiras da ciência, enquanto Popotzer comenta as aplicações clínicas dessas novidades. 

VEJA SAÚDE: Como o conhecimento sobre os aspectos moleculares dos tumores evoluiu nos últimos anos? 

Shai Rosenberg: A partir de 2008, os cientistas passaram a sequenciar [“ler”] o código genético de uma ampla quantidade de tumores. Um tumor tem basicamente o mesmo DNA do que seu portador, mas com mutações que causam a doença. 

Com o barateamento das técnicas de sequenciamento, fomos entendendo cada vez mais as características dessas mutações e como elas tornam os tumores muito diferentes uns dos outros.

Hoje, temos bancos de dados com mais de 11 mil tumores sequenciados, e não estamos olhando apenas para o DNA, mas também para o RNA [molécula que “traduz” o que está escrito no DNA e ordena a produção de proteínas] para entender o comportamento do tumor. 

+ Leia também: A revolução genética

E que diferença isso faz no tratamento? 

Agora, entendemos que algumas mutações podem guiar o tratamento, como a mutação no gene EGFR, presente em 17% dos portadores de câncer de pulmão, e avançamos muito na medicina de precisão. 

A próxima questão a ser respondida é por que alguns pacientes não se beneficiam desse tipo de tratamento, mesmo com uma mutação conhecida. 

E também como escolher a melhor combinação de terapias, pois muitas vezes o paciente tem mais de uma mutação ou pode ter um conjunto de alterações ainda desconhecidas, capaz de interferir na resposta às terapias e na agressividade da doença. 

Interessante. Outro ponto que parece desafiador é a questão do tumor mudar com o tempo. Pelo que entendi, essas mutações se tornam mais ou menos importantes, certo? 

Sim. O tumor é um órgão evolucionário selecionado de acordo com o ambiente. É como a evolução darwiniana: algumas mutações tornam o tumor mais adaptado para crescer.

A cada proliferação celular, essa mutação pode ser herdada ou uma nova surgir. E é aleatório, parecido com os vírus: certas alterações não fazem diferença nenhuma, outras darão a ele, por exemplo, a capacidade de provocar metástase ou desenvolver resistência ao tratamento, e, portanto, tendem a prevalecer e ser transmitida para as próximas células. 

Quando a maioria das células cancerígenas morre após um tratamento, pensamos que a doença desapareceu, mas algumas, com mutações bem raras, podem se tornar mais prevalentes graças ao favorecimento ambiental. 

Ou seja, estamos entendendo que o tumor segue um curso evolucionário, e que alguns desses cursos se repetem em vários pacientes. Isso muda paradigmas, pois atualmente pensamos de maneira muito linear no tratamento do câncer. 

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E o que você pesquisa exatamente dentro dessa área? 

Conhecer a fundo o que significam todas as mutações dos mais de 21 mil genes do tumor seria uma maneira de prever seu curso evolutivo e combinar terapias, incluindo as capazes de manter “quietos” genes que naquele momento não estão fazendo diferença na sobrevivência do tumor, mas que podem se tornar um problema no futuro. 

O problema é que, hoje, a maioria das mutações descobertas é classificada como “de significado incerto” no desenvolvimento da doença. Por exemplo: somente em um gene, o P53, existem mais de 2,3 mil possibilidades de mudanças genéticas, que podem ser neutras ou extremamente agressivas.

Então, o que nós fazemos é usar o machine learning [tecnologia de aprendizado de máquina] para tentar conhecer mais mutações e seus comportamentos. 

Para isso, alimentamos um algoritmo com informações sobre as alterações que temos certeza que causam câncer, as que temos certeza que não causam, e pedimos que ele interprete as que não temos certeza ainda. Em testes, ele já demonstrou 96,5% de precisão com o gene P53. 

Mas são mais de 700 genes que podem estar ligados ao câncer, então agora estamos generalizando o algoritmo para que consiga analisar mais genes. 

A ideia é que esse algoritmo desvende somente as mutações herdadas/germinativas ou as adquiridas? 

Ele foi desenvolvido para as duas, mas agora estamos olhando para as germinativas [as que “nascem” com a pessoa].

Em geral, só 13% das pessoas que desenvolvem câncer esporádico têm uma mutação germinativa. Por outro lado, 47% destes pacientes têm uma mutação genética de relevância desconhecida. 

+ Leia também: Os genes ao nosso alcance

Hoje em dia, fazemos testes genéticos somente em pacientes selecionados porque não sabemos o que fazer em relação a todo esse universo de alterações. 

E como tecnologias como essa poderão ser usadas no futuro? 

Aron Popovtzer: Creio que, no fim do dia, nosso objetivo é de que o tratamento tanto de pacientes com tumores iniciais como avançados seja padronizado com a ajuda de algoritmos como os do Dr. Rosenberg. 

Se pensarmos no tratamento oncológico atual, digamos que haja uma taxa de resposta de 50%. É ótimo, mas significa que a outra metade dos pacientes está recebendo tratamentos que não funcionarão tão bem para eles, e ainda podem causar efeitos colaterais. 

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Há uma ideia generalizada de que quanto mais agressivo você for nas intervenções, melhor. Mas isso não é necessariamente verdade. E se conseguirmos fazer testes como esses em mais pacientes, poderemos tomar decisões melhores na prática. 

Poderemos identificar, por exemplo, quais são as cinco ou seis mutações mais importantes do tumor, sua relevância naquele caso específico e escolher quais devem ser tratadas de maneira precisa e personalizada

Aqui, no Brasil, poucas pessoas têm acesso a testes genéticos. Você acha que essa tecnologia será acessível no futuro? 

Popovtzer: Acredito que sim. Há 10 anos, esse tipo de teste não tinha praticamente nenhuma indicação aprovada pelas agências regulatórias. Já o sequenciamento de nova geração [tecnologia amplamente utilizada hoje] custava cerca de 8 mil dólares – valor que baixou para mil – e se tornou padrão para a investigação diagnóstica do câncer de pulmão e outros cenários. 

Em mais 10 anos, os preços deverão ficar ainda mais baixos, queda fomentada pelo aumento da competição nesse mercado. E vale pontuar que o sequenciamento é a parte cara de tecnologias como as desenvolvidas pelo Dr. Rosenberg. 

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House of the Dragon: quem é Cregan Stark, que pode aparecer na série

Aviso: o texto contém spoilers do último episódio de House of the Dragon.

A Casa Stark por pouco não passou batida durante a primeira temporada de House of the Dragon, que terminou no último domingo (23). A estrela da série, claro, é a família Targaryen, além das recém-introduzidas Velaryon e Hightower. Mas, considerando os clãs clássicos de Game of Thrones, as casas Baratheon e Lannister aparecem mais do que os lobos do Norte.

Até o último episódio, a única aparição da família tinha sido logo no começo, com Rickon Stark (David Hounslow). Durante alguns segundos, o Lorde de Winterfell jura lealdade à princesa Rhaenyra (Milly Alcock), escolhida pelo rei Viserys I (Paddy Considine) como sua sucessora.

Isso mudou no último episódio. Rhaenyra (Emma D`Arcy), já adulta, pede aos filhos que busquem aliados em Westeros para a iminente guerra com o rei Aegon II (Tom Glynn-Carney), filho de Alicent Hightower (Emilia Cooke) e que lhe roubou o Trono de Ferro.

Ao caçula, Luke (Elliot Grihault), a rainha ordena uma viagem até Ponta Tempestade para tratar com o chefe da Casa Baratheon. Lá, ele encontra o irmão de Aegon, Aemond (Ewan Mitchell), e a dragoa Vhagar. Bom, o final dessa história você já sabe (RIP Luke).

Já o primogênito, Jacaerys (Harry Collett), recebeu uma missão dupla: ir até Ninho da Águia, residência da Casa Arryn, e depois viajar até Winterfell para pedir apoio aos Stark. “Cregan Stark é mais próximo da sua idade do que da minha”, diz Rhaenyra a ele, antes de se despedir. “Espero que vocês, homens, consigam chegar a um interesse em comum.”

Cregan é filho de Rickon, e assumiu o comando do Norte após a morte do pai, ainda durante o reinado de Viserys I. Mas, afinal: quem é ele? E qual papel ele poderá desempenhar na segunda temporada?

Rickon Stark (David Hounslow) jura lealdade à princesa Rhaenyra.HBO/Reprodução

Arquivo confidencial

Cregan Stark nasceu em 108 d.C.. Não é “depois de Cristo”, e sim “depois da Conquista” – no universo criado por George R.R. Martin, o marco para a contagem de tempo é a conquista de Westeros por Aegon Targaryen, que usou os dragões da família para unificar os reinos do continente e instituir a sua dinastia.

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(A primeira temporada de Game of Thrones, por exemplo, se passa em 298 d.C.. Gregan está a sete gerações de Ned Stark.)

Rickon Stark morreu em 121 d.C., quando Cregan tinha apenas 13 anos. A causa da morte nunca foi detalhada nos livros da saga. O que se sabe é que o irmão de Rickon, Bennard, assumiu como regente até que o sobrinho atingisse a maioridade.

Quando Gregan completou 16 anos, porém, Bennard não deu sinais de que deixaria a posição. O atrito levou Cregan a ordenar a prisão do tio junto com três de seus filhos, para evitar qualquer nova insubordinação, e se tornou Lorde de Winterfell.

Tudo isso, contudo, aconteceu ainda durante o reinado de Viserys, então não se sabe se essa história será contada em House of the Dragon.

Os livros descrevem Cregan como alguém que adora beber, caçar e treinar técnicas de combate. Tem olhos cinzentos como “uma tempestade de inverno” e é considerado um dos melhores espadachins de Westeros. Ele se casou com a amiga de infância Arra Norrey e tem um filho, Rickon (a linhagem real, contudo, continuou com os filhos que Cregan teve em outro casamento, com Lynara Stark).

A relação entre os Stark e os Targaryen sempre foi pacífica. Durante a Guerra da Conquista, Torrhen Stark, o último Rei do Norte, se ajoelhou perante Aegon e seus três dragões (Balerion, Vhagar e Meraxes), poupando, assim, a vida de milhares de soldados. Desde então, a família cumpriu suas obrigações com o reino, mas ficou relativamente distante da maior parte dos assuntos – manter o Norte unido já é uma tarefa dispendiosa por si só.

Ainda é cedo para cedo para cravar com qual facção dos Targaryen Cregan irá se alinhar durante a Dança dos Dragões (os Verdes, de Aegon e do clã Hightower, ou os Pretos, de Rhaenyra, Daemon e cia.). O Lorde de Winterfell terá 21 anos na segunda temporada da série, com estreia prevista para 2024.

Mas uma coisa é certa: considerando o tamanho do Norte, o seu apoio poderá desbalancear essa batalha. Será um núcleo importante da história – e bem interessante de acompanhar.

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Usina vai transformar CO2 e luz solar em combustível para aviões

Texto Larissa Pessi e Bruno Garattoni

A aviação é responsável por aproximadamente 2% das emissões totais de CO2 no mundo. Pode até parecer pouco, mas definitivamente não é: dá 760 milhões de toneladas de CO2, o equivalente às emissões de 165 milhões de automóveis.

E o principal é que, ao contrário do que acontece com os carros, que já começaram a se eletrificar, essa mudança será muito mais difícil no setor aéreo: com as tecnologias atuais, as baterias simplesmente não conseguem armazenar energia suficiente para voar por mais de 20 ou 30 minutos. E isso com aeronaves bem pequenas, levando apenas uma ou duas pessoas. Em suma: a aviação é um obstáculo no caminho da descarbonização. 

Mas uma tecnologia pode ter a resposta. Perto da fronteira com a Bélgica, a cidade alemã de Jülich abriga o Parque Brainergy, um hub focado no desenvolvimento de soluções de energia sustentável. É lá que, em setembro, começou a ser construída uma fábrica de combustíveis que serão produzidos a partir do CO2 da atmosfera – e do calor do sol.

Trata-se da DAWN, uma iniciativa da startup suíça Synhelion, que promete ser a primeira usina do mundo a produzir combustível sintético (synfuel) em escala industrial. 

A usina se espalha por um campo de 1.500 metros quadrados, cobertos por heliostatos. Parecidos com painéis solares gigantes, esses aparelhos são formados por espelhos giratórios que concentram e direcionam os raios para uma torre de 20 metros de altura. Dentro da torre fica o reator termoquímico, que pesa 12 toneladas e fica cheio de CO2 e água.

Quando essa mistura é exposta ao calor, vindo dos raios de sol concentrados, ela alcança uma temperatura de 1500 graus – e isso, junto com a pressão dentro do reator termoquímico, converte o CO2 e a água em hidrogênio (H2) e um monóxido de carbono (CO) sintético, que então é processado quimicamente e transformado em querosene de aviação sintético – que pode ser usado no lugar do combustível tradicional. 

Ilustração mostrando como será a usina piloto da empresa Synhelion, que começou a ser construída na Europa.Synhelion/Divulgação

A primeira demonstração do sistema foi feita na sede da do Instituto de Tecnologia de Zurique, do qual se originou da Synhelion, em 2019. A nova usina é um projeto piloto, que funcionará 24 horas por dia.

Se a tecnologia funcionar na prática, a Synhelion diz que seria possível construir mais usinas como essa, e produzir até 875 milhões de litros de combustível solar a cada ano, no mundo, a partir de 2030. O custo, diz a empresa, seria competitivo com o dos combustíveis fósseis: no máximo 1 euro por litro.  

Ciclo de transformação do CO2 atmosférico e da água em querosene de aviação.Zoller et al/Reprodução

A técnica pode revolucionar a aviação, mas explora um processo químico antigo: o Fischer-Tropsch, desenvolvido pelos alemães Franz Fischer e Hans Tropsch em 1923. Eles inventaram um método para transformar carvão em gás e, em seguida, num combustível sintético.

O processo, em que o carvão era exposto a temperaturas entre 150ºC e 300ºC, chegou a ser bastante usado na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, quando faltou combustível.

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Estima-se que mais de 90% do combustível usado nos aviões alemães, e mais de 50% do petróleo fabricado no país durante os anos 1940, tenham sido produzidos via Fischer-Tropsch. No Brasil houve algo parecido. Com o racionamento da gasolina, também nos tempos de guerra, o país utilizou um combustível sintético chamado gasogênio. 

Só que esses processos eram poluentes: afinal, tudo se resumia a queimar carvão, ainda que transformado em outro combustível. A Synhelion também emprega o processo Fischer-Tropsch, mas de forma completamente diferente. A temperatura usada é bem mais alta, e as matérias-primas são outras: energia solar e CO2 da atmosfera.

E, o mais importante, o combustível sintético é neutro em carbono – pois sua produção retira da atmosfera a mesma quantidade de CO2 que ele libera quando é queimado. 

Reator termoquímico como o utilizado pela Synhelion.Zoller et. al/Reprodução

Além de querosene de aviação, o gás sintético também poderia ser transformado em gasolina ou diesel. Em todos os casos, ele seria um drop-in fuel, ou seja, quimicamente similar aos combustíveis adotados hoje – por isso, os veículos não precisariam de nenhuma adaptação para começar a usá-lo. 

O syngas em aviões – e além

Em julho deste ano, o Parlamento Europeu determinou que, a partir de 2025, o querosene de aviação deverá conter pelo menos de 2% de combustíveis limpos na fórmula – e o plano é chegar a 85% até 2050.

O regramento lembra a lei que determina, no Brasil, a adição de etanol (um combustível neutro em carbono, já que a cana-de-açúcar absorve da atmosfera o CO2 liberado quando o etanol é queimado) à gasolina comum, hoje em 27,5% da composição. Além de diminuir a emissão de poluentes, a norma criada nos anos 1990 busca amenizar as oscilações do preço internacional do petróleo.

Em janeiro, a Synhelion firmou uma parceria com a Swiss International Air Lines para abastecer parte da frota dessa empresa com uma mistura de querosene solar já a partir de 2023. A ideia do Grupo Lufthansa, controlador da companhia aérea, é impulsionar a tecnologia do syngas com a construção de uma segunda fábrica, na Espanha. 

A Airbus também está investindo no desenvolvimento de um combustível sustentável de aviação – conhecido pela sigla SAF, sustainable aviation fuel. No ano passado, a gigante europeia realizou um voo teste de três horas a partir do aeroporto de Toulouse, na França, utilizando um querosene 100% sustentável. 

Ele era feito de óleo de cozinha usado, misturado com outras gorduras. A iniciativa faz parte do consórcio SAF+, que busca começar a produzir em escala comercial a partir de 2025.

Em um relatório divulgado no ano passado, a empresa de pesquisas de mercado Lux, dos EUA, estimou que a produção de synfuels baseados em CO2 poderia chegar a 110 milhões de litros já nos próximos cinco anos. E sua utilização não se limitaria ao segmento energético: os combustíveis sintéticos também são úteis para a indústria química. 

Na cidade chinesa de Tongyezhen, o Grupo Henan Shuncheng está construindo uma fábrica que vai usar CO2 da atmosfera e hidrogênio para produzir metanol renovável, um biocombustível que pode ser usado para várias finalidades – desde solvente industrial até a fabricação de plástico, além de servir como combustível propriamente dito.

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Novo remédio para endometriose

Um medicamento chamado relugolix renova a esperança por alívio de mulheres que sofrem com as dores da endometriose. Ele foi testado e comparado em 638 voluntárias: metade tomou placebo, metade recebeu o princípio ativo pra valer.

“O benefício obtido no controle da dor foi significativo”, afirma o ginecologista Mauricio Abrão, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coautor da pesquisa publicada no periódico The Lancet.

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O relugolix é um comprimido de uso diário, que atua inibindo a ação do estrogênio, hormônio que estimula os ovários e o endométrio. Já está aprovado nos Estados Unidos e deve ser indicado para os casos mais severos da doença, mas o efeito é apenas analgésico. “O que trata de fato é a cirurgia”, ressalta Abrão.

Mudanças na classificação da doença

<span class="hidden">–</span>Ilustrações: Editoria de arte/Veja Saúde/SAÚDE é Vital

Os desafios da endometriose vão além da busca por um tratamento eficaz. Isso porque nem sempre ela é apenas um problema ginecológico. O tecido do endométrio pode escapar do útero e migrar para locais bem distantes, como pulmão e até cérebro.

+ Leia também: Endometriose: tratamento hormonal ou cirurgia?

Para dar conta dessas situações, a Classificação Internacional de Doenças (CID) passou a incluir mais de 100 subtipos do distúrbio. “Na prática, tudo que é endometriose profunda, a que mais causa dor e tem indicação para a cirurgia, está contemplado no documento. Isso é importante para garantir o atendimento da paciente e a remuneração ao médico por parte das operadoras de saúde”, comenta Abrão.

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Enquete: qual foi o maior avanço contra o câncer dos últimos anos?

Na reportagem de capa da última edição, contamos como o cenário do tratamento do câncer mudou radicalmente. Em alguns casos, tumores antes letais chegam a desaparecer — ou viram um problema com o qual se pode conviver. De olho nisso, queremos saber: qual foi o maior avanço contra a doença nos últimos anos? Responda à nossa enquete:

 


Enquete: qual foi o maior avanço contra o câncer dos últimos anos? Publicado primeiro em https://saude.abril.com.br

A raiva nos afasta das pessoas e nos aproxima das doenças

Este ano eleitoral tem se superado na promoção de um estado de exasperação coletiva motivado por posições políticas antagônicas e por uma total incapacidade de compreender (ou ao menos respeitar) que amigos e familiares podem ter visões diferentes sobre um mesmo tema.

É um cenário que favorece a raiva, uma emoção básica e natural do ser humano, mas que, ao extrapolar o bom senso, prejudica o convívio social, reduzindo nosso círculo e lançando pessoas queridas no hall das desprezadas.

Desencadeada após um evento de contrariedade ou frustração, mas também como resposta a uma ofensa injusta e desmedida, a raiva pode ser entendida como um mecanismo de defesa.

Ela estimula a produção de hormônios responsáveis por nossas reações defensivas, como quando estamos prestes a atacar ou sermos atacados – ou seja, tem a ver com tudo que sugere agressividade ou necessidade de fuga. Olhando por esse lado, a raiva seria até saudável, funcionando como impulso para ações necessárias ou motivação para mudanças.

Porém, alguém colérico, que convive constantemente com essa sensação, sofre os efeitos negativos do estímulo: destilar raiva em tempo integral faz mal ao corpo e à alma.

Os danos emocionais são comprovados pelo constante estado de mal-estar. Não é raro identificarmos e rotularmos pessoas como mal-humoradas, ranzinzas e bravas. O resultado é que elas têm dificuldade em relacionamentos de todos os tipos.

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O impacto no organismo

O corpo bombardeado diariamente pelas substâncias químicas derivadas desse processo de raiva entra em estado de estresse. Afinal, a descarga de adrenalina é muito grande, causando alterações fisiológicas importantes, inclusive do ponto de vista cardiovascular, como aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos.

Em casos extremos, a raiva pode até ser considerada responsável por enfermidades graves, como o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC).
Alguns estudos já até demonstram uma associação entre raiva e diabetes: os mais raivosos teriam maior tendência em desenvolver a doença.

Tonturas, vertigens, tremores, inquietação, cansaço físico excessivo, falta de memória, problemas gastrointestinais, insônia e distúrbios alimentares (com aumento ou diminuição da ingestão de alimentos) também estão entre os malefícios físicos promovidos pela raiva.

Refletindo sobre isso, publicamos no site da SOCESP esclarecimentos sobre a raiva e o impacto dela na saúde cardiovascular e geral.

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Raiva e espiritualidade

Não é fácil, mas é possível gerenciar o que nos causa raiva. Uma vez que conseguimos identificar os focos geradores – e isso é subjetivo – temos que aprender a evitar as situações que provocam esse sentimento.

Cada um tem seu gatilho, mas um dos mais comuns é a dificuldade em lidar com frustração. Por isso, uma postura mais positiva perante à vida e ao outro é uma possibilidade.

Aceitar que nada é perfeito e que a frustração pode ser uma excelente aliada para nos levar a tentar novamente é um caminho viável.

Nesse sentido, cabe aqui falar da dificuldade de se lidar com as diferenças: a intolerância com os que pensam de outra maneira, que fazem escolhas contrárias às nossas e que têm outras crenças é algo que merece ser apontado como um dos fatores causadores da raiva.

Note que as mesmas pessoas que militam corretamente a favor da aceitação e inclusão das diferenças podem ser autores de atos de intolerância.

Entender que certas coisas são imutáveis e aprender a não brigar e a relevar quando alguém nos contraria afasta a raiva do nosso dia a dia.

Temos capacidade de sermos felizes mesmo quando nem tudo é do jeito que gostaríamos, desde que possamos desenvolver capacidade de tolerar as frustrações e contrariedades.

Perdoar quem nos ofendeu entra nesse ranking de busca pela espiritualidade que faz bem ao coração – nos dois sentidos – e deixa a raiva limitada ao seu lugar, sem extrapolar.

Ofensas infundadas e bate bocas infindáveis, que se tornaram recorrentes nos últimos tempos por motivos políticos, devem ser evitados e não apenas para mantermos as boas relações, mas porque ninguém muda a opinião do outro com truculência.

A única coisa capaz de mudar quando nos alimentamos de doses diárias de raiva é a nossa saúde física e mental. Para pior.

*Suzana Pacheco Avezum é psicóloga e psicanalista e diretora executiva do Departamento de Psicologia da SOCESP.

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