sexta-feira, 30 de julho de 2021

Adolescente com comorbidade entra em grupo prioritário de vacinação

O Governo Federal incluiu definitivamente gestantes, puérperas e lactantes, com ou sem comorbidades, no grupo prioritário de imunização contra a Covid-19. A alteração na Lei 14.124, que trata do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação, foi publicada no Diário Oficial da União.

Pela norma, crianças e adolescentes com deficiência permanente, com comorbidade ou privados de liberdade também passam a fazer parte do grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19, “conforme se obtenha registro ou autorização de uso emergencial de vacinas no Brasil para pessoas com menos de 18 anos de idade”.

A inclusão de adolescentes no grupo foi motivada pelo fato de que uma parcela deles apresenta comorbidades e, em paralelo, a vacina da Pfizer já se mostrou adequada a esse público. Portanto, o argumento é que não faria sentido limitar a vacinação apenas a maiores de idade.

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A vacina contra a Covid-19 da Pfizer foi a primeira a receber o registro definitivo no Brasil. Em junho, o imunizante da farmacêutica americana obteve o aval da Anvisa para ser aplicado em grupos com 12 anos de idade ou mais.

Na última terça-feira (27), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que assim que for concluída a vacinação de maiores de 18 anos, o Brasil iniciará a vacinação de adolescentes com idades entre 12 e 17 anos.

*Com informações da Agência Brasil.


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O que podemos aprender com o preparo das nossas jogadoras de futebol

Algumas orientações e atividades que fazem parte do dia a dia dos atletas podem ser adaptadas para todo mundo que busca uma vida com mais saúde, movimento e qualidade. É o que percebo como coordenador médico das seleções de futebol feminino há mais de dez anos. Podemos nos inspirar e nos basear na preparação das jogadoras para ter uma rotina mais balanceada. E o melhor: você pode começar já!

Começo pelas refeições. Comer bem é inescapável para quem quer levar uma vida saudável. Na concentração das atletas, são preparadas cinco refeições, com intervalo de três horas entre elas: café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia. Para atender às necessidades das jogadoras, o cardápio do almoço e do jantar conta com arroz, feijão, salada e uma boa fonte de proteína. Pode parecer simples, mas é muito nutritivo.

A sobremesa inclui frutas, fazendo eco a uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aconselha a ingestão diária de cinco porções de frutas, verduras e legumes. Um hábito que ajuda a evitar doenças crônicas.

E tem doce também. Isso mesmo, só que em quantidade controlada e conforme a orientação do nutricionista para cada atleta. Sabemos que, nos períodos menstruais, o açúcar auxilia a aplacar alguns sintomas e chateações. O problema, claro, é o excesso de doce, que bagunça o organismo.

Todo mundo pode e deve ter uma alimentação nutritiva e equilibrada. O ideal é procurar um profissional para adequar a dieta às suas necessidades, atividades e gostos.

Agora vamos falar da atividade física em si. E da prevenção de lesões, preocupantes para as atletas pois podem representar, muitas vezes, o fim de um sonho. Só que as lesões não são exclusivas dos esportistas profissionais. Podem dar as caras em qualquer um e têm a ver com o desgaste de músculos, articulações e ossos.

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Começamos a perder massa muscular após os 30 anos. As articulações vão ficando menos resistentes e flexíveis e mais propensas a rupturas e processos degenerativos. Acontece que quem fica muito tempo sentado e parado está mais sujeito à perda muscular, à osteartrite, a quedas e dores, muitas dores. A própria OMS alerta que 80% da população já teve, tem ou terá dor na coluna, por exemplo.

O médico Nemi Sabeh, da seleção feminina de futebol, nos Jogos Olímpicos de Tóquio.Foto: Acervo Pessoal/Divulgação

Você pode não ser atleta, mas precisa incluir de verdade a atividade física na sua rotina. Procure um médico do esporte para uma avaliação prévia e busque uma modalidade de acordo com o seu perfil e que lhe dê prazer ao executar. Isso garante regularidade — e mais qualidade de vida.

Por fim, para o público feminino, temos que considerar a tensão pré-menstrual (TPM) e seus impactos no cotidiano. Uma pesquisa do Ibope de 2015 indica que 76% das brasileiras sofrem de cólica menstrual, além de incômodos relacionados ao período como enxaqueca, dor nos seios e nas pernas, náuseas etc. Esses são sintomas da TPM, fase que acontece da ovulação à menstruação.

Sabemos que isso pode prejudicar o rendimento e o desempenho não só das atletas, mas de qualquer mulher em atividade produtiva. Afinal, as repercussões envolvem desde dificuldade para realizar exercícios de força e explosão até alterações de humor.

A consulta com o ginecologista é fundamental para entender o que se passa, indicar o anticoncepcional ou medicamento adequado para regularizar o fluxo e controlar o excesso de sangramento e descartar qualquer outro problema, caso da endometriose. Os anticoncepcionais são bastante utilizados pelas atletas para não menstruar durante o treino e os jogos — sempre com o devido acompanhamento médico.

Manter a atividade física nesse período, ainda que com algumas adaptações, também é bem-vindo. Quando você se exercita, libera endorfina, hormônio que gera sensação de bem-estar e alivia o estresse e as dores. Agora, se não estiver se sentindo confortável, não deixe de ajustar o treino e fazer exercícios mais leves. Respeitar os sinais do corpo é essencial. Para todo mundo — inclusive as jogadoras.

* Nemi Sabeh Jr. é ortopedista, médico da Seleção Brasileira de Futebol Feminino, integrante do núcleo de especialidades do Hospital Sírio-Libanês (SP) e idealizador da On Evolução Corporal, em São Paulo e em Assis, no interior paulista


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ROC: Por que a Rússia disputa as Olimpíadas com essa sigla?

Quem está acompanhando as Olimpíadas de Tóquio provavelmente já se deparou com uma sigla nada familiar: ROC. Essa abreviação designa o Comitê Olímpico Russo (ou Russian Olympic Committee, em inglês). É por ela que os atletas da Rússia estão competindo em vez de representar o país em si.

O ROC foi uma alternativa criada para que os atletas russos pudessem participar de competições internacionais após os escândalos de doping descobertos em 2019. (A dopagem – ou doping, em inglês – é o uso de substâncias proibidas no esporte, que podem melhorar o desempenho de um atleta durante uma competição.)

Por conta dos escândalos, a Rússia foi punida e não pode participar de competições esportivas até 2022. A punição prevê a proibição da bandeira e do hino nacional russos nas disputas. Mas as cores da bandeira (branco, azul e vermelho) podem aparecer – como nos uniformes dos atletas.

Em vez da bandeira da Rússia, o que vemos durante a participação dos atletas russos nos Jogos é a bandeira do ROC, que exibe as cores da bandeira russa em uma chama olímpica, acima dos cinco anéis olímpicos.

<span class="hidden">–</span>Valery Sharifulin/Getty Images

O hino nacional da Rússia também foi substituído: quando um atleta do ROC ganha uma medalha de ouro, é tocado um trecho de “Concerto para Piano No. 1” do compositor russo Pyotr Tchaikovsky (1840-1893).

O escândalo de doping

Em 2019, a Agência Mundial Antidoping (ou Wada, na sigla em inglês) proibiu a Rússia de participar de todas as competições esportivas internacionais por quatro anos. Essa punição aconteceu após a agência averiguar que amostras de um laboratório de Moscou estavam sendo adulteradas para evitar a confirmação de casos de doping pela Wada.

Após apelações, a sanção de quatro anos foi reduzida pela metade pelo Tribunal Arbitral do Esporte – um tribunal internacional responsável por resolver disputas relativas ao mundo esportivo. A proibição termina em dezembro de 2022, e até lá os atletas russos não envolvidos em casos de dopagem podem participar de competições esportivas internacionais sem representar diretamente a Rússia – constituindo o ROC.

Assim, a Rússia também não vai ser representada na Copa do Mundo de 2022 ou nas Olimpíadas de Inverno de 2022. A bandeira e o hino da Rússia só estarão de volta nas Olimpíadas de 2024, em Paris.


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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Promessa de vacina e medicamentos injetáveis marcam os 40 anos do HIV

Em 1981, ocorreu o primeiro diagnóstico da aids, nos Estados Unidos. Quarenta anos depois do início dessa pandemia, 38 milhões de pessoas convivem com o vírus HIV, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). De lá pra cá, muitos avanços revolucionaram o tratamento da doença –  e chegamos em um momento bem marcante nesse aspecto. Hoje, há pelo menos quatro projetos de vacinas em andamento, sem falar na nova tecnologia de medicamentos injetáveis, que prometem impedir a transmissão do vírus e melhorarar a qualidade e a expectativa de vida. A desigualdade social, no entanto, é o que ainda impede que essas soluções cheguem aos mais vulneráveis. A meta da Organização das Nações Unidas (ONU) é acabar com a aids até 2030.

O Brasil participa de um dos estudos de imunizante, o Mosaico, que envolve instituições dos Estados Unidos, Europa e América Latina e é patrocinado pela farmacêutica Janssen. Atualmente, a pesquisa está na fase três, quando são realizados testes em seres humanos. O objetivo é verificar a eficácia de uma vacina de quatro doses, cuja tecnologia é muito semelhante à da usada contra a Covid-19. “As primeiras injeções são com o Adenovirus26 [causador de resfriado comum] modificado em laboratório e, portanto, incapaz de causar a doença. Um mosaico de estruturas genéticas com os diversos subtipos circulantes do HIV tipo 1 é acoplado a esse vetor. Ou seja, ele trabalha como um Cavalo de Troia, expondo o indivíduo a frações proteicas do vírus sem que a pessoa entre em contato com sua forma infectante”, explica infectologista Bernardo Porto Maia, coordenador do projeto no Instituto de Infectologia Emilio Ribas, em São Paulo.

As doses são aplicadas em um intervalo de três, seis e doze meses. Nas últimas etapas, uma outra vacina proteica age como uma espécie de reforço. “Até hoje, o mais longe que chegamos foi com do projeto da Tailândia, que alcançou a eficácia de 31%, o que é considerado muito baixo. Já na fase pré-clínica do Mosaico, feita com chimpanzés, atingimos 67%. Mas esse índice precisa ser comprovado em humanos”, relata o médico.

O infectologista Rico Vasconcelos, que coordena o mesmo estudo, mas na Universidade de São Paulo (USP), conta que os primeiros resultados do Mosaico podem ser anunciados em dois anos e meio. “Esse é o tempo que deve durar a fase 3. No Brasil, estão envolvidos centros em Manaus, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba”, observa o médico. O ano de 2023 também é o prazo para conhecermos melhor os efeitos de uma outra vacina, estudada na África subsaariana.

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Vacinas ao redor do globo

Dados publicados pelo New England Journal indicam pelo menos cinco estudos de vacinas em todo o mundo, incluindo o projeto Mosaico. Dois já foram encerrados. A tabela abaixo mostra as características desses ensaios, que variam de acordo com a região. “Como em toda pesquisa desse tipo, nós selecionamos para os testes o público que se mostra mais vulnerável à doença no local”, esclarece Rico Vasconcelos.

“Na África subsaariana, a infecção se concentra nas mulheres cisgênero heterossexuais jovens, que foram convocadas a participar do estudo. Já no Brasil, os homens gays e as pessoas trans são considerados mais vulneráveis. Mesmo que haja casos entre pessoas heterossexuais, esse grupo tem menor risco de ser infectado”, explica Vasconcelos.

+ Região: Tailândia
Período: 2003-2009
Público: homens e mulheres
Resultado: 31% de eficácia

+ Região: África do Sul
Período: 2016-2020
Público: homens e mulheres
Resultado: sem eficácia comprovada

+ Região: África subsaariana (HVTN 705)
Período: 2017-2022
Público: mulheres
Resultado: testes em andamento

+ Região: Europa, Estados Unidos e América Latina
Período: 2019-2023
Público: homens que fazem sexo com homens
Resultado: testes em andamento

+ Região: África subsaariana (PrepVacc)
Período: 2020-2023
Público: homens e mulheres
Resultado: testes em andamento

Outro estudo não citado pelo periódico inglês teve sucesso na fase 1. A Iniciativa Internacional pela Vacina da Aids (Iavi) e o Scripps Research Institute, nos Estados Unidos, testaram um novo tipo de vacina contra o HIV e os dados animaram: o imunizante estimulou a produção de anticorpos especialmente potentes em 97% dos participantes.

Medicamentos já evitam transmissão

Quando a aids surgiu, o máximo que o médico podia dar ao indivíduo era conforto. A primeira medicação, o AZT, começou a ser usada por volta de 1985, mas não reduzia a carga viral, e os efeitos colaterais fragilizavam ainda mais a pessoa com o HIV.

“No fim dos anos 1990, com os inibidores de protease, começamos a ter mais controle da carga viral, e isso resultou em uma sobrevida”, conta Maia. Na prática, a terapia combinava três classes de retrovirais. Com ela, o sistema imunológico melhorou e a expectativa de vida passou a ser como a de qualquer outra pessoa. Mesmo assim, a rotina era dura, porque o paciente precisava tomar muitos comprimidos ao longo do dia.

Há cerca de 4 anos, surgiram os inibidores da integrase. Com poucos eventos adversos e necessidade de menos comprimidos, a nova medicação impedia o RNA do vírus de se fundir à célula humana. Isso também evitava a transmissão da doença. “Ou seja, o próprio tratamento passou a colaborar com a prevenção”, conclui Maia.

A qualidade e a expectativa de vida subiram com essa evolução. “Se, hoje, a expectativa de vida é de aproximadamente 72 anos, o indivíduo soropositivo que recebe tratamento pode viver mais do que isso. Afinal, qualquer pessoa com uma condição crônica, como a aids, frequenta o serviço de saúde com mais regularidade e, assim, garante o tratamento precoce de novas doenças”, raciocina Ariadne Ribeiro Ferreira, oficial de Apoio Comunitário da Unaids Brasil.

Futuro: geração de medicamentos injetáveis

Ter à disposição medicamentos que provocam menos efeitos colaterais e conseguem impedir a transmissão é excelente. Mas a história fica ainda melhor. “Estamos entrando na era dos medicamentos injetáveis, que já são aprovados nos Estados Unidos, na Europa e no Canadá. Eles garantem uma maior eficicácia no tratamento porque é mais fácil administrar uma picada do que vários remédios por dia”, avalia Vasconcelos.

A dose mensal já é disponibilizada em muitos países, e há estudos sobre opções para injeções a cada seis meses. “No Brasil, porém, ainda estamos longe dessa realidade. O país já foi referência no tratamento, mas, infelizmente, paramos no tempo”, lamenta o infectologista da USP. Ora, é ótimo que tratamentos mais modernos estejam aparecendo, mas eles precisam chegar a toda a população – sobretudo a mais vulnerável.

Arsenal ampliado

Fazer relações sexuais com camisinha e não compartilhar a mesma seringa no uso de drogas são mantras ouvidos desde os anos 1980 na prevenção da aids. Mas há ainda outras saídas. Quando uma pessoa acredita ter entrado em contato com o vírus, ela pode buscar ajuda no hospital mais próximo para ter acesso à Profilaxia Pós-Exposição ao HIV, mais conhecida pela sigla PEP. “Ela funciona como uma espécie de pílula do dia seguinte. Deve ser tomada após a exposição de risco para impedir o vírus de alcançar a corrente sanguínea e infectar a célula de defesa”, explica Ariadne.

Já a PrEP, a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, é um comprimido que se toma regularmente, antes da exposição ao vírus, mas o objetivo é o mesmo: prevenir a infecção. “Quem tem uma vida sexual exposta a riscos ou não consegue usar preservativo, por exemplo, pode pedir para um médico receitá-la. No entanto, é preciso usar o medicamento com responsabilidade, porque ele não evita outras doenças infecciosas. É essencial tomá-lo com acompanhamento médico e fazer exames regulares”, observa a oficial da Unaids. Até porque um efeito colateral da PreEP é aumentar a probabilidade de danos ao fígado.

O SUS oferece esses dois medicamentos. A novidade é que, a partir de julho deste ano, pacientes da rede privada que tiverem a receita da PrEP dada por um médico particular terão acesso ao tratamento de forma gratuita pelo SUS, segundo Vasconcelos. Disponível no sistema público de saúde desde 2018, o remédio já se mostrou eficaz na prevenção. Em São Paulo, especificamente, os resultados são notórios. “De 30 a 40% dos usuários do tratamento estão na capital, já que se ampliou o acesso à terapia. O resultado disso foi a queda inédita de novos casos em 25%”, relata o infectologista.

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Desigualdade social é desafio para conter doença

Fazer mais testes e facilitar o acesso aos melhores tratamentos, hoje capazes de garantir uma carga viral indetectável, está entre os caminhos para atingir a meta de acabar com a aids até 2030. “O Brasil não conseguiu bater todas as metas ainda, mas o tratamento é amplo graças ao Sistema Único de Saúde [SUS], que chega a 92% dos diagnosticados. O maior desafio, tanto aqui como no mundo, é vencer as desigualdades sociais”, relata Ariadne, da Unaids Brasil. Hoje, 67% das pessoas que vivem com HIV no mundo estão sendo tratadas.

“A tecnologia avança rápido. Ela não é o problema. O maior obstáculo é tornar os tratamentos acessíveis a todos”, concorda Rico Vasconcelos. “Como dificilmente teremos uma equidade mundial nesse sentido, a vacina virá para ajudar a solucionar essa questão”, raciocina o infectologista.

“Há estigmas que ainda persistem nesses 40 anos, como o preconceito em relação à sexualidade. Também há o racismo estrutural, que faz com que mais negros morram de aids do que brancos. Questões como essas são o combustível dessa desigualdade, dificultando o acesso dessas pessoas aos sistemas de saúde”, explica Ariadne. No Brasil, as mulheres também estão expostas e, ainda, foi detectado um avanço da doença em pessoas com mais de 60 anos, porque não há nesse grupo a cultura de utilizar preservativo, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde do ano passado.

O estudo Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com a HIV/Aids no Brasil apontou que mais de 60% já sofreram preconceito por viverem com o vírus. Comentários discriminatórios ou especulativos afetaram 46,3% delas, enquanto 41% foram alvos de comentários feitos por membros da própria família. Os entrevistados já passaram por assédio verbal (25,3%), perda de fonte de renda ou emprego (19,6%) e enfrentaram até mesmo agressões físicas (6%).

Outro dado impactante revela que há preconceito nos serviços de saúde, onde esses indivíduos deveriam experimentar o oposto: acolhimento. Pouco mais de 15% das pessoas entrevistadas afirmaram ter sofrido algum tipo de discriminação por parte de profissionais da saúde, incluindo atitudes como o esquivamento do contato físico (6,8%) e a quebra de sigilo sem consentimento (5,8%). A pesquisa ouviu cerca de 1 800 pessoas em sete capitais brasileiras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também chama atenção para o fato de que o mundo está atrasado nas metas de combate a aids, e lançou um guia de prevenção e tratamento da doença.

Atendimento não parou durante a pandemia

Para garantir que todas as pessoas infectadas pelo HIV não interrompessem seus tratamentos durante a pandemia de Covid-19, a Unaids se uniu ao Ministério da Saúde para criar novas estratégias. “Para pessoas que já estão estáveis, os médicos passaram a liberar receitas para três ou seis meses de medicação. Assim, os que realmente precisam da consulta, poderiam fazê-la. É questão de garantir a equidade e oferecer cuidado a quem mais precisa”, explica Ariadne. Houve um esforço ainda para que as pessoas com HIV fossem consideradas parte do grupo de risco e, assim, pudessem receber a vacina contra a Covid-19 antes da população em geral.


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Hábito de tomar café pode reduzir risco de arritmia, diz estudo

Vira e mexe o café é ligado a benfeitorias à saúde – desde que apreciado com moderação. No ano passado, um estudo da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e do Instituto Norueguês de Saúde Pública, encontrou uma relação entre tomar a bebida e uma maior expectativa da vida – com vantagens para o tipo filtrado. Agora, dados publicados no periódico Jama Internal Medicine sugerem que o café teria um efeito protetor quando o assunto é arritmia cardíaca.

Apesar de algumas limitações, trata-se de uma pesquisa robusta. Os quase 400 mil participantes foram selecionados a partir de um banco de dados genético britânico, o UK Biobank, o que colabora para uma diversidade de pessoas envolvidas.

“Eles buscaram homens e mulheres com idade média de 56 anos e com diferentes variações genéticas. Isso porque há organismos que metabolizam melhor a bebida, outros menos”, avalia Olga. “Em algumas pessoas, o café pode aumentar o automatismo das células do coração, elevando a frequência cardíaca”, exemplifica a cardiologista.

Em aproximadamente três anos, 16 979 dos participantes desenvolveram a arritmia. Mas, ao cruzar os dados, os cientistas notaram que, para cada xícara adicional de café consumida, o risco de o problema dar as caras caía 3%.

Na prática, esses dados podem mudar o comportamento do médico ao abordar doenças cardíacas. “Sempre se recomendou aos pacientes com algum grau de arritmia que deixassem de tomar café, mas nunca houve uma evidência robusta sobre o assunto. Uma pesquisa antiga americana chegou a apontar que 79% dos cardiologistas sugeriam interromper ou reduzir o consumo da bebida”, conta Olga Ferreira de Souza, da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj).

Não é de hoje que o café fica cada vez mais distante da lista de vilões para o peito. Alguns estudos menores já indicavam que sua influência poderia ser neutra ao coração. “Esse estudo dá o primeiro sinal de que não é preciso proibi-lo quando se investiga uma arritmia, a não ser que o indivíduo relate que sente palpitação após consumir a bebida. Ou seja, não é preciso generalizar tanto”, afirma Olga.

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A máxima de que todo abuso pode prejudicar o organismo deve ser levada em conta antes de encher a próxima caneca. “O ideal é consumir de três a cinco xícaras por dia. É uma bebida com potencial antioxidante, que promove bem-estar. O problema é tomar 10 ou até 15 doses por dia. Com certeza o exagero vai gerar desconforto e alterações na saúde”, pontua a cardiologista.

Limitações

Esse estudo avaliou apenas o consumo de café, o que não inclui produtos que possuem cafeína em sua composição, como energéticos, chocolate e refrigerantes à base de cola. A pesquisa também não indicou qual o melhor tipo da bebida (coado ou expresso, por exemplo) e dependeu apenas do relato dos entrevistados.

Quais os riscos da arritmia?

A arritmia é quando o coração bate de forma descompassada. Há aquelas de menor risco e as que podem provocar uma morte súbita. “Elas se diferenciam pela origem no coração, nos átrios ou ventrículos, pela gravidade e pelo mecanismo de ação”, explica Olga. As mais frequentes são as que ocorrem nos átrios, como a fibrilação atrial, que é vista como uma epidemia no mundo, segundo a cardiologista.

“A vida moderna e os fatores de risco que carregamos, como hipertensão, diabetes, tabagismo e exagero na bebida, estão relacionados à doença”, relata Olga. “É como uma atividade elétrica desordenada do coração, capaz de levar a um acúmulo de sangue no átrio e a formação de um coágulo. Este pode chegar ao cérebro e causar um AVC [acidente vascular cerebral]”, completa a médica.

Há tratamento, mas o problema é que, em 30% dos casos, a condição não dá sintomas. Assim, muita gente nem chega a saber que tem a doença. Daí a importância de realizar um checkup cardiológico, que contempla avaliações do ritmo cardíaco e da anatomia do coração.

“É fundamental que as pessoas aprendam a verificar o pulso e procurem um especialista sobretudo se tiverem histórico familiar. Os portadores da doença devem fazer checkups constantes”, reforça Olga, que inclusive falará sobre fibrilação atrial no 38º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj), que ocorrerá entre 9 e 12 de agosto.


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Biotecnologia, uma nova aliada contra as doenças endêmicas

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia”, já dizia o poema de Marina Colasanti. Fato é que a Covid-19 nos arrebatou há mais de um ano e, embora compreendida como um advento delicado para a humanidade, trouxe também luz a uma situação que já vivenciávamos sem perceber: ao deparar com uma tragédia, nosso cérebro tende a normalizá-la por autoproteção, e somente a torna alarmante novamente quando a ocorrência se torna próxima de nós.

Isso não é apenas uma constatação empírica, mas resultado de uma pesquisa publicada pela revista científica Nature sobre como as pessoas reagem àquilo que tem um efeito individual ou coletivo. E, fazendo um paralelo à saúde pública, da mesma forma que vemos o entorpecimento coletivo em relação aos números de casos ou óbitos pelo novo coronavírus, esse comportamento se repete no que tange a dengue, zika e chikungunya. Se não as vivenciamos, nos esquecemos do perigo.

Pode parecer um pouco discrepante fazer uma comparação como essa, mas quando, antes da Covid-19, você leu notícias sobre o controle do Aedes aegypti nas redes sociais ou na mídia? Quais informações obteve sobre o zika vírus e os impactos nas vidas de mães e bebês com microcefalia? Provavelmente apenas quando a doença esteve perto, não?

Para promover a mudança, não podemos nos acostumar. É essencial ampliar a nossa visão, ter a ciência como aliada e a vontade de transformar realidades e práticas como parte do nosso dia a dia. Afinal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dengue grave, conhecida desde os anos 1950, hoje afeta a maioria dos países asiáticos e latino-americanos e é uma das principais causas de hospitalização e mortalidade de crianças e adultos — 5,2 milhões de casos foram identificados somente em 2019.

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Ao entendermos o comportamento do ecossistema em que estamos inseridos, as suas complexidades e a nossa responsabilidade frente a isso, podemos iniciar um importante movimento de educação e ação, voltado à conscientização de que não precisamos conviver com as doenças endêmicas transmitidas pelo Aedes aegypti que reemergem de tempos em tempos, mas atuar no controle do mosquito, ou seja, na sua causa.

Consórcios internacionais estão comprometidos com o desenvolvimento de soluções que utilizam métodos biotecnológicos similares aos aplicados na produção de vacinas para o coronavírus. De maneira simples, o próprio mosquito será a ferramenta para limitar a sua espécie, evitando as grandes infestações do Aedes aegypti de maneira segura.

A lógica é usar a biotecnologia para inserir um gene autolimitante no vetor (o mosquito macho), liberá-lo na natureza para acasalar com fêmeas selvagens e reduzir, assim, as populações de mosquitos que transmitem a dengue e outras moléstias. Isso não é futuro: já temos experiências bem-sucedidas no Brasil, desde 2010, e fora do país.  

Podemos e devemos mudar a nossa forma de pensar e agir coletivamente. O fomento às descobertas é um caminho para um mundo melhor, que não cerceia o conhecimento. Pelo contrário, o transforma.

* Natalia Ferreira é doutora em biologia molecular e genética, pós-doutora em biotecnologia empresarial e diretora-geral da Oxitec do Brasil


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