segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A saída de Simone Biles das Olimpíadas e a saúde mental no esporte

Simone Biles tinha 6 anos quando sua turma do colégio foi convidada a participar de uma excursão pela natureza. No tão esperado dia, porém, um temporal obrigou a professora a improvisar um plano B. Para não desapontar seus alunos, resolveu levá-los a um ginásio poliesportivo.

Foi como se a pequena Simone tivesse ido a um parque de diversões. Mal chegou lá, já começou a dar cambalhotas e a fazer acrobacias pelo tablado. Impressionados com a desenvoltura da garota, os instrutores pediram a ela que entregasse um bilhete aos seus pais: “Já pensaram em matricular essa menina numa aula de ginástica?”.

Dois anos depois, Simone começou a ser treinada por Aimee Boorman e não parou mais. Só em campeonatos mundiais, ganhou 25 medalhas, 19 delas de ouro, superando o recorde anterior, de 23 medalhas, 12 de ouro, que pertencia ao ginasta bielorusso Vitaly Scherbo, hoje com 49 anos.

Logo em sua primeira Olimpíada, a do Rio-2016, Simone Biles, então com 19 anos, conquistou cinco medalhas, quatro de ouro e uma de bronze. “Não sou a próxima Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”, declarou a atleta de 1,42 de altura e 47 quilos.

Cinco anos depois, a expectativa era que Simone, hoje com 24 anos, ganhasse mais cinco ouros em Tóquio e igualasse a façanha da soviética Larisa Latynina, que somou nove ouros em três edições dos Jogos. Não foi o que aconteceu. No último dia 27, ela surpreendeu a todos ao anunciar que abandonaria a final da ginástica feminina por equipe.

“Não confio mais tanto em mim quanto antes. Talvez seja o fato de estar ficando velha”, disse, na coletiva de imprensa. “Não somos apenas atletas. Somos pessoas. E, às vezes, é preciso dar um passo atrás”.

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No dia seguinte, outro baque: Simone desistiu também de disputar a final individual geral, prova que deu a Rebeca Andrade, de 22 anos, uma inédita medalha de prata para a ginástica feminina brasileira. “Às vezes sinto como se tivesse o peso do mundo sobre as minhas costas. Faço parecer que a pressão não me afeta, mas é difícil”, postou a ginasta em seu perfil no Instagram.

“São muitos os elementos potencialmente estressores na vida de um atleta. A rotina de treinamento, por exemplo, é muito árdua. Não bastasse, eles praticamente não têm vida social. Isso sem falar em torneios, resultados, patrocínios…”, enumera a psicóloga Thabata Castelo Branco Telles, presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp). “Cada atleta lida de um jeito. Uns são mais brincalhões e levam numa boa. Outros, porém, sofrem bastante”.

Pequena notável

Simone Arianne Biles nasceu em Columbus, no estado de Ohio, mas foi criada em Springs, no Texas. Sua mãe biológica, Shanon, sofria de dependência química e, como não tinha condições de criar os quatro filhos, eles foram levados para lares provisórios.

Passado algum tempo, Simone e Adria, as irmãs mais novas, foram adotadas por Ronald, o avô materno, e sua segunda mulher, Nellie, e Ashley e Tevin, os mais velhos, foram morar com uma tia. Na infância, os quatro chegaram a passar fome.

Ao longo da carreira, Simone Biles passou por outros apuros. Em janeiro de 2018, ela veio a público prestar solidariedade às ginastas que denunciaram os abusos sexuais sofridos por Larry Nassar e declarar que ela também fora vítima do ex-médico da delegação americana de ginástica.

Em abril de 2020, quando o Comitê Olímpico Internacional confirmou oficialmente o adiamento dos Jogos de Tóquio por causa da pandemia, Simone caiu no choro. Sabia que teria pela frente mais um ano de treinamento puxado.

Algum tempo depois, já refeita do susto, resolveu curtir a vida: comprou uma casa nova, trocou de namorado, adotou um buldogue francês. Uma semana antes de embarcar para Tóquio, foi entrevistada pelo jornal The New York Times. Ao ser indagada sobre qual teria sido o momento mais feliz de sua carreira, respondeu: “O meu tempo livre”.

“Para alguns atletas, o peso das expectativas, tanto externas quanto internas, é quase insuportável”, observa João Ricardo Cozac, doutor pelo Laboratório de Psicossociologia do Esporte da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorando em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). “A atitude corajosa da Simone Biles precisa ser respeitada. Não é um sinal amarelo, é um sinal vermelho. O esporte de alto rendimento está longe de ser um lugar emocional e psicologicamente saudável. Se o atleta não tiver apoio ou estrutura, poderá sofrer graves prejuízos”.

“Tudo bem não se sentir bem”

Simone Biles não é um caso isolado. Outros esportistas de alto rendimento, como a tenista japonesa Naomi Osaka e o nadador americano Michael Phelps, já declararam sofrer de ansiedade e depressão.

Em maio, Naomi Osaka, que acendeu a pira na cerimônia de abertura dos Jogos de Tóquio, anunciou que abandonaria o torneio de Roland Garros, na França. Participar de coletivas de imprensa depois dos jogos, explicou, é tão estressante que põe em risco sua saúde mental. Vencedora de quatro títulos de Grand Slam, Naomi Osaka é, aos 23 anos, a tenista número 2 do ranking e a atleta mais bem paga da atualidade. “Tudo bem não se sentir bem”, relatou para a revista Time.

Outro atleta que, volta e meia, sofre com episódios de depressão é o nadador Michael Phelps, de 36 anos. Maior medalhista olímpico de todos os tempos – com 23 ouros, duas pratas e três bronzes –, o americano admitiu que, pouco depois dos Jogos de Londres 2012, chegou a pensar em suicídio.

+ Teste: você está com depressão?

“Não foi fácil admitir que eu não era perfeito. Mas fazer isso tirou um peso enorme das minhas costas”, declarou ao canal de TV ESPN em maio de 2020. “As pessoas que vivem com problemas de saúde mental sabem disso: eles nunca desaparecem. Você tem dias bons e dias ruins. Mas não há uma linha de chegada”.

“O atleta é um ser humano como outro qualquer. A única diferença é que ele tem habilidades físicas fora do normal”, explica a psicóloga Katia Rubio, coordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos (GEO) da USP. “Essas habilidades levam o torcedor a acreditar que os atletas não têm problemas, não sentem dores, são infalíveis. Como qualquer outra pessoa, atletas têm o direito de dizer que não estão se sentindo bem mesmo que seja no momento mais importante de suas carreiras”.

E o que nós, meros mortais em matéria de esporte olímpico, temos a aprender com superatletas como Biles, Osaka e Phelps? “Todos nós, em diferentes níveis, sofremos cobranças. Não temos o nível de exigência deles, mas também somos cobrados por um bom desempenho, como se aquele ato fosse o último de nossas vidas. A condição do ser humano é ser imperfeito. Temos que aprender a lidar com nossas imperfeições”, responde Katia.


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Como diferenciar gripe, resfriado ou Covid-19 em crianças?

Nariz escorrendo, tosse, febre… Os sintomas chegam com o frio do inverno e deixam pais e mães naquela velha dúvida: é gripe ou resfriado? Agora, com o coronavírus, mais uma doença entra nessa equação. Mas, afinal, dá pra diferenciar em casa? Como identificar e tratar cada uma? 

Para ajudar as famílias, a pediatra Ana Escobar, professora da Universidade de São Paulo (USP), lançou recentemente o e-book É Gripe ou Covid-19? No material, ela explica que as doenças respiratórias virais em geral têm um início muito parecido, com febre e dores pelo corpo, cabeça ou garganta, além de falta de apetite, diarreia e náusea. As crianças também podem ficar mais impacientes e molinhas, principalmente se estiverem febris.

A diferenciação é ainda mais complicada porque as manifestações mais conhecidas da Covid-19 nem sempre aparecem nos pequenos. “Em adultos, a doença apresenta sinais bem característicos, como tosse mais seca e perda do olfato e paladar. Mas, em crianças, eles são menos distintos”, diz a pediatra. “Por isso, só os testes podem confirmar ou descartar o diagnóstico, o que vale para os adultos, aliás”, completa.

Com a ajuda de Ana, destrinchamos abaixo essas três viroses. Mas é sempre bom lembrar: o coronavírus ainda é, em parte, uma incógnita para a ciência, e novos sintomas seguem sendo descobertos. Então é essencial que, ao notar qualquer queixa suspeita nos pequenos, o isolamento social seja seguido até realizar o teste de Covid-19.

Principais sintomas de cada doença

Resfriado: coriza, febre baixa, dor de garganta, tosse e espirros. 

Gripe: febre alta, dor intensa no corpo, tosse, dor de garganta e cansaço. Coriza, nariz entupido e diarreia também são comuns em crianças.

Covid-19: febre alta, tosse seca, coriza, dor de cabeça, diarreia. Em casos mais graves, pode surgir dificuldade para respirar. Também há evidências de problemas dermatológicos em quadros infantis, como manchas vermelhas na pele, lábios secos ou rachados, e até roxidão nos dedos

O que fazer diante das primeiras manifestações 

O ideal é que criança não saia de casa, exceto para ir ao médico. Ela não deve ir à escola nem ter contato com outras crianças (mesmo de máscara!) se estiver doente, incluindo quadros leves. Para os pais, a orientação é reforçar os cuidados com o uso de máscaras e durante os contatos sociais.

+ Como amparar um paciente com Covid-19 em casa

Após três dias de sintomas, o exame que detecta a Covid-19 deve ser realizado — de preferência o RT-PCR, aquele do cotonete. Independente do resultado, é importante consultar um pediatra e seguir suas recomendações. Se o exame der negativo, a intensidade do quadro ajuda os pais a diferenciar se é gripe ou resfriado

Particularidades do tratamento

Os protocolos para lidar com o coronavírus nos pequenos são iguais aos dos adultos. Se os sintomas forem leves e a criança não tiver doenças que aumentem seu risco de encarar versões graves da infecção, recomenda-se apenas que os cuidadores mantenham o isolamento, reforcem a hidratação e, se possível, meçam a saturação de oxigênio pelo menos três vezes ao dia. 

“Agora, se a criança fizer parte de algum grupo de risco, é de extrema importância que os pais conversem com o médico para obter orientações específicas”, alerta a pediatra Ana Escobar. 

Em casa, os adultos devem ficar de máscara. “Sabemos que é difícil manter uma criança pequena com o acessório ou fechada no quarto o dia todo”, explica a pediatra.

Se a saturação do pequeno estiver abaixo de 93% ou se houver piora dos sintomas (o que pode acontecer na fase inflamatória da doença, lá pelo sétimo dia), é essencial procurar atendimento médico de urgência.

Em caso de gripe ou resfriado, os cuidados são basicamente os mesmos. “Vale ficar de olho na febre e apostar em medicamentos antitérmicos, descongestionantes ou antigripais”, recomenda a pediatra. O resfriado tende a desaparecer em poucos dias. Já os incômodos da gripe podem durar por mais de uma semana depois da confirmação do diagnóstico.

Prevenir é simples

As medidas protetivas contra a Covid-19 são plenamente eficazes para combater as outras duas viroses: uso correto de máscaras, higienização das mãos, preferir ambientes arejados e praticar o distanciamento social, evitando aglomerações.  

As famílias devem ter discernimento para entender a importância de evitar aglomerações como festas de aniversários, encontros com amigos ou praias lotadas durante a pandemia ou sempre que os filhos estiverem doentes”, finaliza Ana Escobar.


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Quantas vezes devemos fazer xixi ao longo do dia?

Não é para ficar paranoico: fazer mais xixi em um dia e menos no outro é normal. Mas quando essa frequência aumenta muito e de forma constante, pode atrapalhar a qualidade de vida ou sinalizar certas questões.

Segundo Karin Anzolch, urologista do Departamento de Comunicação da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), o mais comum é a pessoa urinar de cinco a oito vezes por dia. “Se a regularidade é muito maior, o indivíduo pode estar ingerindo líquido demais”, afirma. Há também o risco de ele estar sofrendo um princípio de incontinência urinária, ou doenças como diabetes e hiperplasia da próstata.

O intervalo entre as micções também deve ser levado em consideração. Se uma pessoa ingere menos de dois litros de água por dia, mas vai ao banheiro a cada hora, é necessário procurar um especialista. “O paciente pode ter quadros como o de uma bexiga mais sensível”, destaca o urologista Fernando Leão, proctor em cirurgias da próstata com laser greenlight pela Boston Scientific (EUA).

A incontinência urinária

É uma das doenças mais comuns que aumenta o número de idas ao banheiro. Ela é marcada pela dificuldade ou incapacidade de segurar a urina. Sem tratamento, prejudica muito a qualidade de vida.

Ela é mais comum entre mulheres, que naturalmente possuem uma uretra curta. “A uretra feminina tem de três a seis centímetros. Já a do homem, cerca de 20 centímetros”, diz Karin. Com um canal menor, é mais difícil segurar a urina.

+ LEIA TAMBÉM: Por que faz mal segurar o xixi?

O parto, que pode alterar a musculatura pélvica, é outro fator de risco para a incontinência. Nos homens, ela é mais incidente após cirurgias de próstata. Quadros neurológicos, como esclerose múltipla, obesidade e bexiga hiperativa, também podem terminar em um maior número de micções por dia e perda involuntária do xixi.

Existem dois tipos de incontinência: a de esforço e a de urgência. A primeira acontece quando a pessoa tem a musculatura pélvica mais fragilizada e espirra, pula ou faz algum esforço físico. Já segunda é aquela em que o paciente tem uma vontade súbita, e não consegue contê-la antes de chegar ao banheiro.

A boa notícia é que há vários tratamentos para a incontinência urinária. “As taxas de sucesso são elevadas hoje em dia”, afirma a especialista.

Quando a pessoa faz pouco xixi

Isso pode ser sinal de que o indivíduo deve se hidratar mais. A retenção urinária também sugere disfunções renais ou na próstata. “Se a pessoa está urinando menos do que cinco vezes ao dia, é bom avaliar”, afirma Karin.

A cor da urina

O ideal é que o xixi esteja sempre claro, quase transparente. Um amarelo forte aponta para a desidratação ou problemas nos rins. Certos medicamentos também alteram essa coloração. Já se a urina estiver avermelhada, é bom investigar se alguma estrutura do sistema urinária não está lesionada. A ingestão de alimentos como beterraba também deixa o xixi com esse tom.

*Esse texto foi publicado originalmente na Agência Einstein.


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Os rins são um dos principais alvos da Covid-19

Após os pulmões, os rins são os órgãos mais frequentemente afetados na infecção pelo coronavírus. Quase metade dos pacientes internados com Covid-19 apresenta algum tipo de lesão renal, a chamada injúria renal aguda.

Nos pacientes internados em UTI com quadros mais graves, um em cada cinco necessita do tratamento de purificação sanguínea denominado hemodiálise, indicado para substituir parcialmente a função dos rins. A mortalidade em pacientes com a infecção pelo coronavírus que necessitam de hemodiálise ultrapassa 60%.

Fatores que aumentam o risco para desenvolvimento de injúria renal são a idade avançada, o sexo masculino, a etnia afrodescendente e a presença de comorbidades como obesidade, diabetes e hipertensão. Em quase 70% dos pacientes com esse quadro, o principal fator precipitante é a desidratação.

Estudos apontam que o tempo médio entre o início dos sintomas e a procura por atendimento médico é de sete dias. Durante esse período é comum a presença de sintomas da Covid-19 como febre, falta de apetite, vômitos e diarreia, que contribuem para a perda de líquidos e, consequentemente, episódios graves de desidratação.

Além disso, a resposta inflamatória exagerada do organismo à infecção viral, a chamada sepse viral, também afeta negativamente a função dos rins, sendo responsável por 20% dos quadros de injúria renal. Atualmente não existe nenhum tratamento específico com medicações para evitar o desenvolvimento dessas complicações nos rins.

Nos pacientes mais graves, que necessitam do suporte com hemodiálise, um tratamento inovador é a hemoperfusão. Essa modalidade de purificação sanguínea é realizada em conjunto com a hemodiálise, mas tem a particularidade de conseguir remover do sangue citocinas, moléculas envolvidas na resposta inflamatória ao vírus.

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Nos quadros críticos de Covid-19 e sepse viral, há uma liberação exagerada dessas moléculas pelas células do sistema imunológico, a tempestade de citocinas. Quando se encontram em excesso, as mesmas citocinas que ajudam a defender o organismo passam a causar lesões em diferentes órgãos, como pulmões, coração, fígado e rins.

A remoção das citocinas durante o tratamento de hemoperfusão restabelece o equilíbrio imunológico, habilitando o organismo a combater de forma mais eficaz o vírus. Esse tratamento não é experimental e já vem sendo executado desde o início da pandemia na Europa e, desde o fim de 2020, no Brasil. Tive o privilégio de liderar a primeira terapia de hemoperfusão no país com essa finalidade na Clínica de Doenças Renais de Brasília.

É importante salientar que, em pacientes previamente diagnosticados com graus avançados de doença renal crônica, dialíticos ou transplantados renais, a probabilidade de desenvolvimento de quadros graves de Covid-19 é exponencialmente maior do que em indivíduos saudáveis. A mortalidade em pacientes dialíticos ou transplantados com quadros sintomáticos da infecção pelo coronavírus é de 20%.

Infelizmente, pacientes que realizam hemodiálise não podem praticar totalmente o isolamento social, pois precisam se deslocar às clínicas ao menos três vezes por semana para realização de suas sessões. Já os transplantados renais usam imunossupressores, medicações que enfraquecem o sistema imunológico para evitar rejeição ao novo órgão. Devido a uma resposta imunológica debilitada, os transplantados são mais propensos a quadros complicados de Covid-19.

Essas duas populações mais vulneráveis foram priorizadas para a vacinação — ainda bem! No entanto, estudos demonstram uma menor eficácia dos imunizantes em pessoas submetidas à diálise e principalmente nos transplantados. Nos Estados Unidos, pacientes que passaram por transplante renal e não produziram anticorpos após as duas doses da vacina estão recebendo uma dose de reforço adicional (a terceira dose). Provavelmente essa estratégia também será adotada no Brasil.

* Thiago Reis é nefrologista, pesquisador afiliado do International Renal Research Institute of Vicenza, na Itália, transplantador renal da Clínica de Doenças Renais de Brasília e do Hospital DFSTAR – Rede D’Or São Luiz e pesquisador do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade de Brasília (UnB)


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domingo, 1 de agosto de 2021

Tem diabetes? Atenção ao que não tem evidência

Metade das pessoas com diabetes já tentou algum tipo de terapia sem eficácia comprovada para a doença. É o que mostra uma revisão publicada no European Journal of Pharmacology em cima de 38 estudos conduzidos pelo mundo.

Para piorar, em 21% dos casos os indivíduos abandonaram o tratamento prescrito, e em 67% das situações o uso da abordagem alternativa não foi informado ao médico. “O achado indica problemas de comunicação entre profissional e paciente, que deveriam ter uma relação de cumplicidade”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, que já comentou o levantamento em sua coluna no site da VEJA SAÚDE.

A falta de acolhimento e a vergonha de perguntar abrem caminho a soluções sem nenhuma base científica.

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De olho nas provas

Soluções naturais também não são inofensivas. Não dá para apostar nelas sem evidências de benefício e segurança.

Chás e garrafadas: Couri aponta as infusões de ervas como a tática “paralela” mais adotada no Brasil para baixar a glicose. Algumas podem fazer mal e atrapalhar a ação dos remédios.

Homeopatia: Ela foi uma das campeãs em menções no estudo internacional, mas não há evidências científicas de que atue contra o diabetes — ou em outras doenças.

Acupuntura: Por aqui as agulhadas não são muito difundidas para essa finalidade, mas lá fora sim. De novo, faltam pesquisas e provas do seu benefício.

Curas espirituais: O principal problema delas é que alguns rituais só podem ser feitos em detrimento dos tratamentos oficiais, o que pode agravar o quadro da pessoa.


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Um falso dilema no ar: o impacto da tecnologia nos negócios da saúde

Não é preciso ser um expert para perceber falhas estruturais nos sistemas de saúde. Uma evidência irrefutável dessa constatação é saber que os Estados Unidos investem cerca de 18% do PIB em saúde e, além de estarem longe da liderança global na qualidade assistencial, enfrentaram uma redução na longevidade da sua população na segunda metade da última década. Não faz sentido!

Diversos fatores influenciam essa situação e seus desfechos. Estou convicto de que o modelo mental vigente centrado na doença está na base de tal distorção, deixando à prevenção um espaço de desejo futuro. Só que a prevenção não pode descer do palco!

Resultante desse olhar equivocado, a evolução nas relações entre prestadores de serviços e pagadores gestou um sistema de reembolso que cria, por si só, um viés de incremento na demanda dos serviços, independente da pertinência no cuidado. É um modelo conceitual insustentável que destrói valor no tempo.

Antes de avançar, cabe registrar que, apesar de ser filho, irmão, genro, tio, sobrinho e amigo de médicos, eu sou engenheiro e entrei na área da saúde inspirado pela possibilidade de tornar acessível um sinal vital neurológico até então aprisionado dentro de nossas cabeças. Libertar um sinal vital salva vidas e reduz a dor e o sofrimento. E é um exemplo de como podemos construir uma medicina mais preditiva e menos refém do paradigma atual.

Me refiro a uma inovação médica global desenvolvida pela nossa healthtech, a brain4care, que provou que a caixa craniana pulsa em sincronia com o ciclo cardíaco, desenvolveu sensores externos e não invasivos que captam esse pulso continuamente e estabeleceu correlações entre esses pulsos e as alterações de volume e pressão intracranianas — um fenômeno tecnicamente conhecido como complacência intracraniana ou cerebral.

Para entender a relevância dessa tecnologia, devo destacar que os distúrbios neurológicos representam hoje a segunda principal causa de morte e a primeira de incapacitação mundo afora. E a grande maioria dessas condições está relacionada a alterações no volume e na pressão intracraniana.

Isso soa mais óbvio quando falamos de acidente vascular encefálico (AVE), hidrocefalia, tumores e traumas, mas o ponto é que outras doenças, nem sempre originárias do sistema nervoso, podem impactar a tal complacência intracraniana — aqui entram problemas no coração, no fígado e nos rins, por exemplo. E precisamos urgentemente reduzir o fardo global dos distúrbios neurológicos.

Agora que esclareci a motivação do meu engajamento profissional com a saúde, sempre ciente que o privilégio do outsider é não ser influenciado pela visão dos insiders, posso compartilhar que liderei uma equipe incrível na concepção dessa inovação em conexão direta com o que acreditamos ser a essência da medicina: ampliar o território da saúde. É mais do que apenas reduzir o território da doença!

Após avanços científicos documentados, e a aprovação regulatória na Anvisa e na FDA (nos EUA), lançamos essa tecnologia pioneira e acessível e encaramos agora o falso dilema da tecnologia aplicada à saúde: a percepção de que aumentar a predição e a prevenção, ampliando a pertinência do cuidando e melhorando o desfecho, poderia colocar em risco a cadeia de valor nos negócios do segmento. Eis um equívoco de interpretação que será fatal para muitos atores envolvidos nesse universo.

Na essência, vejo isso como a inércia de uma visão que já foi dominante, típica de quem está preso a uma realidade anterior e não consegue mais perceber os demais movimentos relativos. Essa lógica parcial induz à reflexão de que prever a evolução clínica do paciente afeta negativamente as receitas, ou que evitar uma intervenção cirúrgica reduz o retorno sobre o ativo. É uma visão distorcida, mas ainda ocorre por aí.

E fica ainda mais sem sentido não apenas porque retira o paciente do centro, mas porque é uma falácia. O observador, preso ao modelo mental que a doença amplia o negócio, só enxerga um lado da equação. Assim, não percebe que a tecnologia também prevê a necessidade de antecipar intervenções, realizar exames não pensados, ajustar protocolos ultrapassados, entre outras infindáveis possibilidades que, ao final, não apenas melhoram a vida das pessoas mas também promovem melhores resultados para os negócios.

Se não bastasse a armadilha do falso dilema, é ainda mais preocupante a não percepção de que, com a digitalização, tudo será mais facilmente identificável, rastreável, comparável e analisável. E isso muda totalmente o jogo: sai o foco em doença e sinistralidade, entra o olhar para a prevenção, o desfecho e as casuísticas. O movimento tectônico já aconteceu. Pena que poucos conhecem a origem dos tsunamis.

* Plinio Targa é CEO da brain4care


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Fóssil de 890 milhões de anos pode ser mais antigo indício de vida animal

Um fóssil de 890 milhões de anos encontrado no Canadá pode ser o mais antigo indício de vida animal já encontrado. Trata-se de um calcário entremeado por uma rede de minúsculos túneis, duas vezes mais estreitos que um fio de cabelo. Esse padrão, conhecido dos paleontólogos, é típico da fossilização de esponjas – sim, esponjas como o Bob Esponja –, que se alimentam filtrando a água do mar e disputam o título de animais mais antigos da Terra.

O consenso atual é que as primeiras formas de vida filtradoras surgiram a partir de 630 milhões de anos atrás, no período Ediacarano. Animais com estruturas de locomoção e comportamento predatório só vieram depois, com o início do Cambriano há 542 milhões de anos. A possibilidade de que já existissem esponjas há 890 milhões de anos abala os alicerces da paleontologia e foi recebida com uma dose saudável de ceticismo pelo comunidade científica.

A rocha, extraída da Cordilheira Mackenzie, próxima à fronteira com o Alasca, se formou no fundo do mar graças ao acúmulo de carbonato de cálcio oriundo do metabolismo de bactérias. Esses corais microbianos, conhecidos como estromatólitos, são nossa principal janela à atividade de seres unicelulares nos primórdios da vida na Terra. Depois, processos geológicos a ergueram até o local em terra firme onde foi encontrada.

A foto no início do texto não é do fóssil canadense. Ela mostra o padrão deixado por uma Spongia officinalis, uma espécie de esponja contemporânea típica da Grécia que ilustra bem o complexo desenho deixado por esses animais após a fossilização. Essas são as mesmas esponjas de origem natural usadas até hoje por quem quer desembolsar uma nota para tomar banho.

Esponjas se dividem entre espécies de contituição mais rígida, que se mantém em pé graças a estruturas chamadas espículas, e esponjas fofinhas, com textura adequada para se esfregar no chuveiro, que se sustentam com filamentos de uma proteína chamada espongina. São esses filamentos que criam a rede de túneis no fóssil.

É sempre arriscado interpretar fósseis antigos com base nas espécies que existem hoje – principalmente neste caso, em que o fóssil foi datado como radicalmente antigo. Porém, neste caso específico, há um argumento forte a favor da hipótese de que essa seja mesmo uma esponja: o fato de que ela vivia apoiada na estrutura calcária já mencionada (o estromatólito), formada por bactérias fotossintetizantes.

A oxigenação da atmosfera terrestre nessa época era um bocado baixa para a respiração celular de um organismo de grande porte. Mas esses recifes microbianos, repletos de criaturinhas que emitiam o gás, formariam oásis de O2 no fundo do mar, capazes de sustentar os primeiros experimentos de vida multicelular. Ou seja: há boas chances de que nossos antepassados mais antigos sejam mesmo Bob Esponjas. E você aí se esfregando com eles.


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