quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Para abrir caminhos nas artérias

Médicos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, dispõem de uma novíssima arma para lidar com a calcificação que trava o fluxo sanguíneo nas artérias e ameaça o coração.

Trata-se de um tipo de ultrassom aplicado para dilatar os vasos que precisam receber um stent mas estão enrijecidos demais para isso. “Imagine um cano que está mais grosso e entupido por dentro. O que o procedimento faz é amolecer essa peça para restabelecer a circulação”, compara o cardiologista Pedro Lemos.

Com um dispositivo de menos de 3 milímetros, os especialistas liberam ondas de som que enfraquecem as placas. Em dez dias, foram oito procedimentos realizados. A técnica promete.

Como é feito o procedimento

A entrada: Uma pequena incisão na pele é usada para colocar um cateter, espécie de tubo que é usado como canal de passagem, na artéria.

O ultrassom: Pelo cateter, o médico insere um equipamento minúsculo, que concentra ondas de ultrassom capazes de quebrar o cálcio dos vasos.

Dilatação: Com essas quebras, é possível dilatar o espaço e inserir um stent, dispositivo que mantém a abertura e restabelece a passagem de sangue.

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O que é a calcificação?

Não é só a gordura que atrapalha a circulação nos vasos. Com o tempo, eles endurecem também porque acumulam cálcio.

É normal, mas, em alguns casos, a calcificação contribui para a interrupção total do fluxo nas artérias do coração, o que leva ao infarto.

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Outros usos da tecnologia

A capacidade de gerar microlesões do ultrassom pode ajudar a tratar outros problemas cardíacos. Atualmente, ele está em testes contra arritmias e hipertensão resistente, para citar dois exemplos.

Mais estudos devem explorar esse potencial e trazer respostas.

 

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Datacenters submersos prometem emitir 40% menos CO2

Texto Sílvia Lisboa e Bruno Garattoni

Os datacenters que fazem a internet funcionar consomem 1% a 2% de toda a eletricidade gerada no mundo. E essa energia muitas vezes provém de fontes poluentes, como as usinas termelétricas. Por isso, os datacenters são responsáveis por 0,3% de todas as emissões globais de CO2, segundo a International Energy Agency (IEA).

Pode até parecer pouco, mas não é: dá 150 milhões de toneladas de CO2 por ano, o equivalente às emissões geradas por 35 milhões de carros. E, com o tráfego de informações na rede dobrando a cada quatro anos, o problema só cresce.

Os datacenters gastam toda essa energia por dois motivos: têm muitas CPUs (um datacenter de grande porte chega a reunir mais de 100 mil servidores, com vários processadores cada um), e também é preciso refrigerar todas essas máquinas. O primeiro problema vem sendo atacado pela indústria de chips, que a cada ano lança CPUs mais eficientes. Mas o segundo requer soluções mais radicais – como construir datacenters debaixo d’água. 

Até o final deste ano, a empresa britânica Subsea Cloud pretende inaugurar o primeiro: um contêiner selado, com 6 metros de comprimento, que será afundado na costa de Port Angeles, em Washington. Dentro dele, estarão 800 servidores. Não à toa, o datacenter foi batizado de Julio Verne, autor do clássico de ficção científica “20 mil léguas submarinas”. Se der certo, a Subsea pretende colocar datacenters submersos no Golfo do México e no Mar do Norte, entre as costas da Noruega e da Dinamarca. 

A estratégia pode parecer arriscada e contraintuitiva (afinal, água e equipamentos eletrônicos não combinam), mas vem sendo considerada uma das mais promissoras para reduzir as emissões de CO2 do setor de tecnologia. Segundo a Subsea, os datacenters submersos consomem 40% menos eletricidade – porque a água do mar resfria o contêiner, dissipando o calor gerado pelos servidores. 

Os contêineres da Subsea têm as mesmas dimensões dos usados no transporte de mercadorias, e são lacrados para que a água não entre. Mas eles são feitos de outro tipo de aço, com menor teor de carbono – e, por isso, mais resistente à corrosão. 

Também são preenchidos com um líquido especial à base de flúor, que conduz calor, mas não eletricidade (evitando que os computadores entrem em curto-circuito, o que aconteceria se eles entrassem em contato com água). Esse líquido absorve o calor gerado pelos servidores e o carrega até as paredes do contêiner – que são resfriadas pelo contato com a água do mar. 

O datacenter submerso é conectado à superfície por uma malha de cabos de cobre e fibras ópticas, que recebem e enviam dados para ele – bem como a eletricidade de que os servidores precisam. O contêiner fica no fundo do mar. Mas em áreas costeiras, onde a profundidade não é tão grande. 

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Por isso, a Subsea diz que é relativamente fácil trazê-lo de volta à superfície para fazer a manutenção dos servidores: segundo ela, o processo leva 4 a 16 horas. Mas a empresa afirma que a necessidade de manutenção será reduzida, pelo fato de não haver poeira no mar e do baixo risco de rompimento da estrutura metálica.

Um data center no Ártico

Em 2018, a Microsoft testou uma ideia similar à da Subsea: foi o Projeto Natick, em que um grande cilindro com servidores dentro foi afundado na costa da Escócia e operado à distância durante dois anos. Em 2020, ele foi içado – e os engenheiros da empresa constataram que a taxa de falhas nos servidores submersos foi quase 90% menor do que a média dos servidores em terra. 

Ou seja, a ideia funcionou. Agora, a Microsoft estuda dar o próximo passo, e instalar datacenters submersos perto de parques eólicos offshore (no mar), cujas turbinas forneceriam toda a energia necessária. 

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Outra ideia para reduzir as emissões de CO2 é levar os datacenters a países gelados. Essa foi a opção do Facebook, que construiu um deles no norte da Suécia, a apenas 100 km do Círculo Polar Ártico. O centro ocupa uma área do tamanho de seis campos de futebol, e fica no meio das gélidas florestas do Polo Norte.

As temperaturas do Ártico oscilam ao redor dos -50ºC a maior parte do tempo. Para aproveitar o ar refrigerado natural, a plataforma o puxa para dentro do prédio usando turbinas semelhantes a de aviões. A energia usada para movimentar as hélices vem de usinas hidrelétricas que operam em rios próximos. “O sistema utiliza quase 40% menos energia do que os datacenters tradicionais”, disse Mark Zuckerberg. Os números são semelhantes ao dos módulos subaquáticos em testes pela Subsea e pela Microsoft.

Já o Google emprega uma série de estratégias, incluindo refrigerar seus datacenters com água de esgoto tratada, para reduzir o consumo de energia e as emissões de CO2. A empresa pretende usar 100% de energia limpa, em todos os seus datacenters, a partir de 2030. 

Apesar de todas essas iniciativas, manter o mundo conectado ainda está longe de ser uma atividade sustentável. Um levantamento da consultoria Capgemini, que analisou 1000 empresas de TI, constatou que reduzir o impacto dele nas mudanças climáticas ainda não é uma prioridade: apenas 43% dos executivos do setor sabem quanto CO2 suas empresas emitem. Embora metade das companhias tenham planos de sustentabilidade, apenas 18% deles eram de fato estruturados, com objetivos e metas bem definidos.

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A negligência é um grande risco ao coração

A hipertensão arterial, o diabetes, o fumo e níveis elevados de colesterol são os principais fatores de risco que causam infartos e derrames. Entretanto, a falta de conhecimento sobre essas ameaças  pode ser ainda mais importante. 

Segundo pesquisa da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo – SOCESP, metade dos diabéticos não sabem que convivem com o problema e, portanto, não fazem nenhum tratamento, o que os predispõe aos riscos fatais das patologias cardíacas. Outro dado aponta que 23,2% dos entrevistados nunca foram ao cardiologista e 46,8% tinham feito a visita há mais de um ano. 

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“Mas eu não sentia nada” é a frase mais comum de se ouvir em uma consulta cardiológica pós-infarto. E o que não surpreende o médico igualmente não deveria surpreender o paciente: a maioria das doenças cardiovasculares são mesmo assintomáticas. Daí a necessidade de consultas e exames preventivos e regulares, que evitam ou ao menos detectam problemas de eles comprometerem órgãos-alvo como o coração, cérebro e rins. O Acidente Vascular Cerebral (AVC), a insuficiência cardíaca, o infarto e o acometimento dos rins estão entre os danos que a trilogia hipertensão, colesterol e diabetes acarretam.

A prevenção não só é o melhor caminho como é primordial: de acordo com a SOCESP, 32,3% dos brasileiros são hipertensos e, após os 60 anos, este percentual sobe para 65%. E ainda 40% da população adulta tem colesterol elevado. O resultado são 400 mil óbitos por ano em decorrência das doenças cardiovasculares, o que corresponde a 30% de todas as mortes no país.

Por isso, o Dia Mundial do Coração, em 29 de setembro, é uma boa deixa para que as sociedades médicas e os programas públicos de saúde trabalhem para alertar sobre a necessidade de controle de doenças que levam às cardiopatias.

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O que você come e o quanto se move?

Além de exigir uma agenda que inclua consultas médicas e exames periódicos, o coração tem fome de alimentação saudável e de atividade física regular. Manter uma dieta balanceada e o corpo em movimento – os exercícios aeróbicos são os mais indicados – minimiza a chance de sobrepeso e obesidade e, consequentemente, de desenvolver cardiopatias. A obesidade está associada a 45% das mortes cardíacas e a 51% dos óbitos por doenças como o AVC.

Há várias propostas de dietas que previnem as doenças cardiovasculares, como a DASH e suas variantes. Elas preconizam baixa ingestão de gordura e baixo teor de carboidratos. Também primam pelo uso comedido de sal, responsável pela elevação da pressão arterial. 

E aqui vale um novo alerta: enquanto a OMS recomenda que o uso máximo de sal por dia não ultrapasse 5 gramas (2 gramas de sódio), nós, os brasileiros, consumimos o dobro: 10 gramas diárias. 

Rastros da Covid-19

Desde o início da pandemia, as pessoas ficaram ainda mais sedentárias, ganharam peso e procuraram menos o médico. Um levantamento da SOCESP indica que, entre uma população que já não se caracteriza pela prática rotineira de atividade – 65,8% se dizem sedentários –, o isolamento social surtiu efeito ainda mais negativo: a maioria dos consultados, 44%, admitiu ter feito ainda menos exercícios. Nesse período houve também uma alimentação mais desregrada:  44,3% afirmaram que ganharam peso durante o combate à Covid-19.

Ter consciência sobre as consequências graves e até letais que essas negligências do cotidiano acarretam à nossa condição física é fundamental para tomar decisões acertadas para o bem da saúde do coração.

*Ricardo Pavanello é cardiologista e diretor da SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Como conviver com alguém que tem Alzheimer?

Imagine alguém que você ama um dia se esquecer de quem você é, das memórias que foram construídas no decorrer da vida entre vocês e apresentar mudanças no comportamento. Como você se sentiria? 

Pode ser estarrecedor refletir sobre esse cenário, mas, hoje, há milhares de pessoas que são familiares ou amigos de alguém com Alzheimer. Estamos falando do tipo de demência mais comum, em que a perspectiva é de que haja mais de 9,9 milhões de novos casos por ano, o que equivale a uma pessoa diagnosticada a cada 3,2 segundos, conforme os dados da Alzheimer’s Disease International (ADI @alzdisint) – organização internacional que reúne mais de 100 instituições mundiais com o propósito de conscientizar as pessoas sobre essa condição. 

Muito falamos sobre os aspectos que envolvem o paciente. Mas e quem cuida? Como fica aquele que ainda tem vivas as lembranças dentro de si e precisa encontrar meios de ressignificar a relação com seu ente querido?

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É preciso recomeçar. O ponto de partida é ter conhecimento do diagnóstico. Uma vez que sabemos com o que iremos lidar, dá para começarmos a traçar nossas estratégias. Encontrar meios de se reconectar leva tempo, demanda esforço físico, mental e emocional. 

Não há, ao menos até hoje, um meio de impedirmos que o paciente apresente mudanças de comportamento e de personalidade ou que não perca sua memória. O que podemos fazer, além de atentar às medicações e demais demandas de cuidados, é construir um ambiente seguro, pacífico, de acolhida e respeito. 

Para tanto, é preciso interiorizar que haverá aspectos que você não poderá resolver, mas poderá transformar ou adaptar. Um exemplo prático disso é o que houve com o ator Alexandre Borges. 

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Após o diagnóstico de sua mãe com Alzheimer, ele parou sua carreira e passou a cuidar dela integralmente. Em uma das entrevistas que concedeu, ele contou que muitas vezes a mãe ficava inquieta, querendo ir a uma festa. Para ela, era nítido que esta era sua agenda do dia. 

No começo, o Alexandre Borges relutava, dizia que não havia nenhuma festa. Até que um dia ele compreendeu que, se “cedesse” e embarcasse na “aventura”, isso poderia transformar a atmosfera. Então eles foram e deram uma volta no quarteirão. Retornaram. E isso bastou para que houvesse conforto à mãe dele. 

Em uma entrevista concedida à revista Veja em 2021, o ator compartilhou: “Nunca tentei corrigi-la. E assim fomos construindo uma relação de amparo e carinho, que lhe traz o conforto de que tanto necessita”, disse ele. A mãe de Borges, uma octogenária, veio a falecer há um ano, no dia 16 de setembro.  

Trago esta história de respeito e resiliência que ambos vivenciaram para que possamos compreender que não podemos impor que alguém que tem Alzheimer seja como sempre conhecemos. Isso não ocorrerá. 

Como já compartilhei em um dos artigos de minha coluna: “estudos apontaram que mesmo na ausência da memória, os sentimentos dos idosos com Alzheimer persistem. Por isso, criar uma atmosfera que gere alegria e segurança contribui inclusive com o tratamento e melhora da qualidade de vida”. 

E, para concluir, deixo aqui cinco recomendações para auxiliar no convívio com uma pessoa com Alzheimer:

  1. Não discuta ou tente argumentar com a realidade percebida por quem tem Alzheimer. Simplifique os diálogos. Encoraje e valide, realmente ouvindo e fazendo perguntas sobre a visão da pessoa. 
  2. Estimule passeios ao ar livre, junto à natureza. Além de auxiliar a manter a pessoa em movimento, isso contribuirá com a sensação de bem-estar. Evite ficar apenas em casa. 
  3. Ouça música junto com a pessoa. Estudos demonstram que esse é um recurso que contribui para acalmar o paciente e auxilia na melhora da atmosfera
  4. Demonstre em atitudes que a pessoa pode ser útil. Por exemplo, diga “Preciso de ajuda para arrumar a mesa para o almoço”. 
  5. Invista seus esforços na manutenção da relação humana e procure trazer à memória quem aquela pessoa que está diante de você representa. 
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Enquete: você lê os rótulos dos alimentos que leva para casa?

Na reportagem de capa da última edição, VEJA SAÚDE contou tudo sobre a nova rotulagem dos alimentos industrializados que passa a vigorar no Brasil. Daí veio a dúvida: você costuma ler essas informações? Responda a enquete abaixo e veja o que dizem outros leitores.


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Pesquisadores encontram navio que tentou salvar o Titanic – e naufragou anos depois

O naufrágio mais famoso do mundo podia ter sido evitado. Em 14 abril de 1912, um navio que estava cruzando o Atlântico avistou o iceberg com o qual o Titanic colidiria mais tarde, na madrugada do dia 15, e enviou uma mensagem de rádio ao navio britânico de passageiros. Mas o alerta nunca chegou à ponte de comando.

Quem tentou salvar a tripulação foi o navio mercante SS Mesaba, que também acabou no fundo do mar, seis anos depois. Agora, pesquisadores da Universidade de Bangor (Reino Unido) conseguiram identificar os destroços da embarcação no Mar da Irlanda, usando um sonar multifeixe de última geração.

O sonar de última geração permitiu aos cientistas mapear 19 quilômetros quadrados do Mar da Irlanda.Universidade de Bangor/Reprodução

O SS Mesaba foi construído em Belfast (Irlanda), assim como o Titanic. Em 1918, último ano da Primeira Guerra Mundial, a embarcação foi atingida por um torpedo que partiu de um submarino alemão. O naufrágio causou 20 mortes.

Naquela época, o navio mercante fazia uma viagem de comboio partindo de Liverpool (Inglaterra) em direção à Filadélfia (EUA). O torpedo atingiu a embarcação quando ela estava próxima de Tuskar Rock, no sudeste da Irlanda.

A descoberta

Os pesquisadores da Universidade de Bangor encontraram 273 embarcações naufragadas no Mar da Irlanda com a ajuda do sonar multifeixe a bordo do navio de pesquisa Prince Madog. Depois de escanear 19 quilômetros quadrados do mar, eles cruzaram essas informações com dados do Escritório Hidrográfico do Reino Unido.

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As descobertas aparecem no livro Echos from the Deep (Ecos das Profundezas, em tradução livre), da arqueóloga marinha Innes McCartney, publicado nesta terça-feira (27).

O sonar de última geração a bordo do Prince Madog mapeia o fundo do mar em detalhes. Segundo os pesquisadores, as imagens produzidas por ele são tão úteis para a arqueologia marinha quanto uma fotografia aérea é útil para se estudar uma paisagem. Ele é considerado (com o perdão do trocadilho) um divisor de águas para as pesquisas no oceano.

(O curioso é que foi justamente o naufrágio do Titanic que motivou o uso dos sonares sob a água. A primeira patente de um dispositivo do tipo, que usa a emissão e a reflexão de onda sonoras para detectar objetos, foi registrada pelo britânico Lewis Fry Richardson um mês após o acidente, em 1912.)

Esta é mais uma imagem do SS Mesaba, obtida pelos pesquisadores da Universidade de Bangor.Universidade de Bangor/Reprodução

“Anteriormente, podíamos mergulhar em alguns locais por ano para identificar visualmente os destroços”, explica McCartney em comunicado. “Mas as capacidades únicas de sonar do Prince Madog nos permitiram desenvolver um meio de custo relativamente baixo para examinar os destroços.”

Segundo os cientistas, o sonar possibilita pesquisas científicas de alta qualidade de maneira econômica, e a identificação de naufrágios é só um exemplo desse potencial. “[Essa tecnologia] é de grande interesse para cientistas marinhos, agências ambientais, hidrógrafos, gestores de patrimônio, arqueólogos marítimos e historiadores”, afirma a pesquisadora.

Estudos como este, que identificou o SS Mesaba, não têm só interesse histórico. “Também examinamos locais de naufrágio para entender melhor como objetos no fundo do mar interagem com processos físicos e biológicos”, explicou Michael Roberts, também pesquisador da Universidade de Bangor. “Isso, por sua vez, pode ajudar os cientistas a apoiar o desenvolvimento e o crescimento do setor de energia marinha”.

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Diabetes é a variável que mais impacta número de mortes por infarto

Já são conhecidos vários fatores que aumentam o risco de infarto, como glicose elevada (hiperglicemia), obesidade, colesterol alto, hipertensão e tabagismo. E agora um estudo publicado na revista PLOS ONE mensurou o impacto de cada um nas estatísticas de morte por doença cardiovascular. A hiperglicemia, um marco do diabetes, mostrou uma associação com esse desfecho de cinco a dez vezes maior do que outros fatores.

Foram usados dados de fontes como os ministérios do Desenvolvimento Social e da Saúde e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrados entre 2005 e 2017. Os números foram confrontados com informações de outros bancos, como o Global Health Data Exchange (GHDx) e o repositório do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington (Estados Unidos).

Por meio de métodos estatísticos, os pesquisadores determinaram o número de óbitos atribuídos a cada fator de risco. O objetivo da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foi ajudar a encontrar estratégias mais eficazes para reduzir a incidência de doenças cardiovasculares – que ainda são as maiores causas de morte no país.

“Independentemente do controle que usávamos – e testamos diferentes tipos de variável, modelos estatísticos e métodos – o diabetes sempre se associava à mortalidade por doenças cardiovasculares. Mais do que isso: é uma associação que não se restringia ao ano analisado, mas perdurava por até uma década”, explica Renato Gaspar, pós-doutorando no Laboratório de Biologia Vascular do Instituto do Coração (InCor), viculado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP).

Estudos anteriores estabeleceram uma equação para calcular o número de mortes prevenidas ou adiadas devido a mudanças em fatores de risco. Assim, foi possível analisar também as taxas de mortes “prematuras”, calculadas em relação à expectativa de vida padrão. Os autores concluíram que cerca de 5 mil pessoas não teriam morrido por doença cardiovascular no período analisado caso os índices de diabetes fossem menores na população. Por outro lado, a pesquisa também permitiu concluir que pelo menos 17 mil mortes foram evitadas somente pela diminuição do consumo de cigarros durante esses 12 anos.

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“Nossos achados fornecem evidências de que as estratégias para reduzir o tabagismo foram fundamentais para a redução da mortalidade por doença cardiovascular”, apontam os autores.

Outro ponto que chamou a atenção dos cientistas foram as diferenças de gênero. “As disparidades sexuais reiteram outros estudos que apontam o diabetes e a hiperglicemia como fatores de risco mais fortes para doença cardiovascular em mulheres do que em homens”, advertem.

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Impacto socioeconômico

A mortalidade e a incidência de doenças cardiovasculares diminuíram 21% e 8%, respectivamente, entre 2005 e 2017 no Brasil. Além da redução do tabagismo, o maior acesso à saúde básica é listado como um dos responsáveis pela melhora nos índices. Essa observação levou em conta a questão da hipertensão, frequentemente associada a problemas cardíacos.

No entanto, ela representou sete vezes menos mortes por doenças cardiovasculares do que a hiperglicemia. Uma das possibilidades é que o acesso ao sistema de saúde universal, com aumento na cobertura de atenção primária, tornou alta na população a taxa de controle da hipertensão.

Corrobora esse achado o fato de que a associação entre hiperglicemia e mortalidade por doença cardiovascular foi independente do nível socioeconômico e do acesso aos cuidados de saúde. Os pesquisadores inseriram covariáveis nos modelos analisados para contabilizar dados como renda familiar, benefício do Bolsa Família, produto interno bruto (PIB) per capita, número de médicos por habitantes e cobertura de atenção primária.

“Além de aumentar a renda, diminuir a desigualdade e a pobreza e ampliar a qualidade e o acesso à saúde, precisamos olhar para o diabetes e para a hiperglicemia de maneira específica”, aponta Gaspar, ressaltando que o país tem discutido pouco questões como o alto consumo de açúcar.

“Precisamos de uma política de educação nutricional. Debater se vale a pena colocar uma tarja nos produtos açucarados com um alerta, como nas embalagens de cigarro, ou taxar produtos com açúcar adicionado de forma a incentivar as indústrias a reduzir esse ingrediente. São questões bastante debatidas em outros países e que precisam ser pautadas aqui.”

Para mitigar os índices de doença cardiovascular no Brasil, as políticas de saúde devem ter como objetivo reduzir diretamente a prevalência de hiperglicemia, seja pela educação nutricional, pela restrição a alimentos com açúcar adicionado ou pelo mais amplo acesso às novas classes de medicamentos capazes de diminuir a chance de o paciente diabético morrer por infarto.

*Este conteúdo é da Agência Fapesp.

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