quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

De hemorroida a fissura: quando o problema é mais embaixo

A Fossa das Marianas é considerada o ponto mais fundo do oceano. São mais de 10 mil metros de profundidade que escondem espécies ainda desconhecidas de peixes, crustáceos, moluscos e sabe-se lá que outros animais.

Já o ânus humano, a caverna que protagoniza esta reportagem, não é inacessível como uma zona abissal, mas até parece, dada a dificuldade de falar abertamente sobre ele. “Infelizmente, a saúde anal ainda é um tabu. Há um constrangimento em procurar ajuda ao notar incômodos no local, especialmente por parte do público masculino”, afirma o cirurgião do aparelho digestivo e coloproctologista Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

“Sintomas estranhos nessa região devem ser avaliados por um médico como quaisquer outros em outras áreas do corpo, mas a resistência e a vergonha acabam atrasando o diagnóstico e piorando o prognóstico”, completa o especialista.

E olha que há um mar de problemas que podem atingir a zona anal. Hemorroidas, fissuras, dores, pruridos… Para quem é mergulhador de primeira viagem nessa história, adiantamos que o mundo novo que se abre envolve uma porção de termos, conselhos, exames e tratamentos.

É um assunto pra lá de democrático. Uma hemorroida pode dar as caras num senhor de 70 anos, assim como fissuras podem aparecer em adolescentes constipadas. Faz parte! Mas há muitos tabus e preconceitos a derrubar.

Para quem faz sexo anal, que exige realmente cuidados específicos, os empecilhos partem até do lado dos médicos. “A maior dificuldade é encontrar um profissional de confiança, com o qual se possa conversar e receber orientações sobre prevenção de doenças. Tudo o que o paciente acaba escutando são comentários negativos, contraindicando o ato”, diz o infectologista Gabriel Cuba, do Hospital Nove de Julho, na capital paulista.

E olha que não são poucos os adeptos, goste o médico ou não. Nos Estados Unidos, pesquisas indicam que até 30% das mulheres heterossexuais já passaram pela experiência. No Brasil, faltam dados sólidos a respeito, mas um levantamento do Datafolha de 2009 registrava que 64% dos adultos sexualmente ativos por aqui já haviam feito sexo anal alguma vez na vida.

Então, se você curte, não se sinta só nem culpado.

+ Leia também: Tabus do sexo fazem mal à saúde

Esse é só um dos estigmas que pairam sobre o ânus. Um órgão que deveríamos valorizar mais, inclusive pelo trunfo revolucionário que ele representa na evolução das espécies.

Antes de terem essa estrutura, os bichos ingeriam comida e liberavam seus resquícios pelo mesmo buraco. Com o desenvolvimento do ânus, foi possível não só armazenar mais comida como aprimorar o trato digestivo, criando, por exemplo, seções com finalidades específicas, que permitem a absorção de mais nutrientes.

Isso foi importante para a trajetória dos seres humanos e da maioria dos animais, apesar de haver por aí espécies sem ânus e outras com ânus multifuncionais, usados até na locomoção e na reprodução.

O nosso é uma transição entre o meio interno e o externo, como a própria boca, e dotado de um complexo mecanismo de controle voluntário e involuntário. “É a única válvula capaz de deixar passar gás e segurar líquidos”, destaca o coloproctologista Euripedes Borges dos Reis, autor do livro Papo de Reto (Pandorga – clique para comprar*). Na obra, o médico usa um tom bem-humorado para ressaltar a importância de cuidar da saúde anal.

Quer mais um motivo pra fazer essa expedição? Encrencas nos órgãos vizinhos costumam repercutir nas profundezas e na borda do orifício, então ele ainda serve como sinal de alerta para o bem-estar de um modo mais amplo.

Indivíduos com doenças que afetam o intestino costumam perceber no cocô ou em seu canal de saída que algo que não vai bem. As fezes mais duras, típicas dos constipados, podem gerar traumas na hora de evacuar que levam a fissuras, cortes doloridos na mucosa anal que exigem tratamento e investigação, além de apontarem para a necessidade de adotar hábitos mais saudáveis.

“É preciso entender o motivo para o endurecimento das fezes. Em geral, a constipação e a dificuldade para evacuar podem ser explicadas por sedentarismo, obesidade, alimentação inadequada e condições que alteram o ritmo intestinal”, explica a cirugiã do aparelho digestivo Vanessa Prado, do Hospital Nove de Julho.

Não à toa, os médicos afirmam que a incidência de problemas ânus adentro está aumentando. E aí, vai uma máscara de mergulho para se aprofundar?

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Augusto Zambonato/SAÚDE é Vital

Sobre hemorroidas e fissuras

Da mesma forma que pode sediar prazer, a zona anal está sujeita a dar abrigo a uma porção de incômodos. Um dos principais é a hemorroida. Ou melhor, doença hemorroidária, como explica Klajner, porque hemorroidas todos temos. “O plexo hemorroidário é uma região anatômica normal, um conglomerado de vasos sanguíneos no cinturão da borda anal. O problema acontece quando eles ficam mais dilatados e intumescidos”, detalha o cirurgião.

Com o tempo, o tecido elástico e firme que segura esses vasos no lugar vai perdendo seu tônus e parte desse conglomerado salta pra fora. Primeiro, na porção interior do ânus, onde não causa sintomas até que a situação piore e a hemorroida apareça do lado externo.

É aí que as pessoas sofrem — a ponto de precisar recolocar o vaso colapsado para dentro, com as mãos — e pode haver sangramento e dor em momentos de crise.

+ Leia também: Hemorroidas: o que são, como surgem e quais os tratamentos disponíveis

Nem sempre precisa operar: a régua é o desconforto ou a quantidade de sangue perdido, sinaliza o médico do Einstein. E a cirurgia evoluiu. Em alguns casos, é possível usar técnicas menos invasivas que não chegam a remover o enrosco no vaso, como a desarterialização, que dá um pontinho na artéria que abastece as veias afetadas para interromper o abastecimento de sangue para elas.

“Os estudos mostram que esse método tem uma recuperação mais rápida e menos dolorida, mas com um risco maior de recidiva, ao passo que a operação convencional está ligada a um pós-operatório mais sofrido e doloroso, mas há menos chances de a hemorroida voltar”, contextualiza Klajner.

A escolha depende da severidade do quadro e de conversas francas entre profissional e paciente.

O olhar do expert é importante antes de tudo para diferenciar hemorroida de fissura, um quadro cada vez mais frequente devido ao estilo de vida. “A hemorroida não necessariamente provoca dor, exceto em crises, ao contrário da fissura, que causa incômodos intensos que persistem durante o dia”, esclarece o cirurgião do aparelho digestivo Rodrigo Oliva Perez, coordenador do Núcleo de Coloproctologia e Intestinos do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Sem meias-palavras, ele diz: “É como se a pessoa sentisse que está evacuando um abacaxi”. E o drama é que, se não for cuidada, a ferida não cicatriza e vira uma lesão crônica. “Aí, a dor na hora de ir ao banheiro interrompe a evacuação, as fezes que ficam guardadas endurecem e tendem a piorar a fissura quando saírem”, descreve Klajner.

Para estancar esse martírio, é fundamental buscar a ajuda de um especialista assim que notar algo errado lá embaixo.

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Augusto Zambonato/SAÚDE é Vital
<span class="hidden">–</span>Ilustração: Augusto Zambonato/SAÚDE é Vital
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Você é do tipo que passa minutos ou até horas no vaso sanitário, mexendo no celular ou lendo uma revista? Se sim, saiba que o hábito contribui tanto para o aparecimento de fissuras quanto de hemorroidas. “A privada foi feita para evacuar, porque a posição exerce uma pressão grande sobre o ânus”, informa Reis.

Outro hábito que piora o trânsito intestinal e pode abalar a porta dos fundos é ignorar os sinais de que é hora de ir ao banheiro. E esse ponto vale sobretudo para as mulheres, educadas durante anos como se fazer cocô fosse algo vergonhoso, a ser praticado só em casa.

Uma dica para regularizar a situação é fazer uma espécie de treino. “Todos os dias, no mesmo horário, de preferência de manhã, sente no vaso por cinco minutos, mesmo sem vontade de evacuar. No começo, pode não acontecer nada ou saírem apenas gases, mas, depois, o corpo passa a entender que aquele é o momento certo para isso”, ensina Reis.

E concentre-se no ato, sem distrações — vai ser bom para a cabeça também.

+ Leia também: Chega de constipação: como liberar o trânsito

Falando nisso, o tratamento de problemas lá embaixo começa um pouco mais em cima. É que uma das principais causas de encrencas anais é o intestino preso, que, por sua vez, pena para trabalhar com uma dieta inadequada.

O padrão alimentar longe do ideal, pobre em fibras dos vegetais e cheio de comida industrializada, também conspira para um mal cuja incidência tem aumentado entre os mais jovens: o câncer colorretal, que pode acometer a região logo acima do ânus. “O consumo excessivo de carne vermelha e produtos industrializados, assim como o álcool e o tabagismo, aumenta o risco da doença ali”, diz a oncologista Rachel Riechelmann, do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.

Segundo a Sociedade Americana de Câncer, houve um crescimento de 2% na taxa do tumor, que já é o terceiro mais frequente tanto em homens como em mulheres, entre pessoas abaixo de 50 anos de 2012 a 2016 nos Estados Unidos.

Os médicos brasileiros notam a mesma tendência. “Estamos vendo cada vez mais casos em gente com menos de 40 anos”, conta a cirurgiã Angelita Gama, do Oswaldo Cruz, uma referência na área e pioneira na criação de um tratamento que combina radio e quimioterapia para o tumor, em algumas situações até dispensando a cirurgia.

O pulo do gato é flagrar cedo, com exames de colonoscopia periódicos a partir dos 40 anos (ou antes), se houver histórico familiar, ou dos 45 em diante para a população em geral. “A colonoscopia permite investigar cólon e reto e já retirar eventuais lesões suspeitas”, diz Angelita. Um recurso e tanto para aliar a uma boa dieta e exercícios regulares.

Mas tumores lá embaixo podem aparecer no ânus em si. É um quadro mais raro e, por isso, menos falado, mas bastante ligado ao HPV, o papilomavírus humano, aquele mesmo patógeno transmitido nas relações sexuais e mais conhecido por provocar boa parte dos casos de câncer de colo de útero nas mulheres.

Há vários subtipos do vírus. Alguns desencadeiam verrugas e lesões que lembram uma couve-flor no ânus, os condilomas. Mas os mais perniciosos são aqueles que provocam alterações inicialmente mais discretas que, com os anos, evoluem para um câncer.

“Daí a importância de prevenir a infecção com uso de preservativo e vacinação, e de fazer uma avaliação regular em alguns subgrupos, em especial o de pessoas que vivem com HIV, que têm risco aumentado da doença”, explica o infectologista Gabriel Cuba.

O imunizante está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para meninos e meninas de 9 a 14 anos e homens e mulheres imunossuprimidos de até 26 e 45 anos, respectivamente. A vacina é segura e capaz de prevenir mais de 90% dos casos de câncer anal, mas está encalhando nos postos de saúde e até em clínicas privadas.

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O HPV representa a infecção sexualmente transmissível (IST) mais prevalente. Embora nem sempre leve ao câncer, merece atenção, do mesmo modo que outras moléstias que acometem a região genital e anal.

Sim, sífilis, clamídia, herpes e gonorreia podem aprontar no ânus. “Notamos, em especial, um aumento nos casos de sífilis, porque as pessoas estão tendo mais relações desprotegidas e um comportamento de risco maior”, aponta o cirurgião do aparelho digestivo Vinicius Lacerda, do Núcleo de Medicina Afetiva (Numa), na capital paulista.

E há as infecções sistêmicas, como as hepatites B e A e o HIV, que também pegam carona pela prática do sexo anal.

Riscos existem, mas é possível reduzi-los com alguns cuidados, a começar pelo uso da camisinha, fazendo exames regulares e prestando atenção a sintomas estranhos, como coceira, dor ou aparecimento de corrimento ou sangue no local.

Consultas e bate-papos sinceros e periódicos com o médico se tornam ainda mais cruciais se lembrarmos que algumas infecções são silenciosas durante anos — mas não deixam de ser um perigo para si próprio como para os outros com quem o sujeito se relaciona.

O xis da questão é, portanto, estabelecer uma relação de confiança com o profissional que nos acompanha. E mandar para o ralo a vergonha e os estigmas que rondam o ânus — um tabu que deixa a região refém de doenças e da escuridão.

quadro sobre problemas que acometem o ânus

Cuidados com o ânus

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Augusto Zambonato/SAÚDE é Vital

Guia do sexo anal seguro

O ânus pode ser fonte de prazer — mas exige cuidados especiais. Veja quais são:

Criando o clima: Para ajudar a relaxar a região, esteja em um ambiente confortável e abuse das preliminares, estimulando o esfíncter com brinquedos e carinhos. Comece introduzindo os dedos.

Com lubrificação: O ânus não tem lubrificação para o ato sexual, e a secura aumenta o risco de lesões e transmissão de doenças. Use produtos à base d’água, e nunca a saliva.

Atenção às duchas: A higiene é importante, mas basta uma boa limpeza externa e evitar refeições pesadas antes de transar. Duchas até podem ser realizadas, desde que de maneira delicada e pontual.

Camisinha sempre: Sem dúvida o item mais importante da lista. O sexo desprotegido, anal ou vaginal, é o principal fator de risco para infecções perigosas, entre elas HIV e hepatite B.

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Treinos que visam correção postural ajudam a reduzir a dor na coluna

Não se sentir confortável ao sentar, deitar ou andar pode ser um sinal de que há algo errado na coluna. Normalmente, a origem das dores está no fato de passarmos cada vez mais tempo em posições inadequadas. E os sintomas nem sempre ficam restritos às costas: eles podem surgir nos ombros e perto da região do quadril. Além disso, a má postura aumenta o risco de lesões nessas áreas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a chamada lombalgia é um dos principais problemas de saúde funcional nos países ocidentais industrializados. Para ter ideia, os dados apontam que 20% dos adultos têm dores nessa região constantemente, e 80% já experimentaram pelo menos um episódio de dor nas costas durante toda a vida.

+ Leia também: Muitas pessoas terão dor nas costas. Pouquíssimas precisarão operar

Para resolver ou minimizar o mal-estar e não agravar ainda mais o quadro clínico, é necessário dar ênfase ao fortalecimento das musculaturas do core, que é a área formada pelo abdômen e pela coluna – a grande responsável por estabilizar o corpo e manter a postura adequada.

Os resultados são potencializados se, em conjunto, houver um treino completo que envolva, além das costas, os membros inferiores e os superiores.

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E se eu já estiver com dor?

A crise de dor pode durar em torno de seis dias a dois meses e se, estiver muito intensa, não é aconselhável treinar nos primeiros dias para não piorar a lesão. Mas é importante ressaltar que, para a prevenção do desconforto, a prática de exercícios físicos deve ser mantida durante a vida inteira.

O treino mais adequado durante uma crise varia de pessoa para pessoa, já que deve levar em conta quais os músculos estão tensionados, relaxados ou enfraquecidos.

+ Leia também: O que são e para que servem infiltrações na coluna

Mas, de forma geral, caminhadas leves e sem muito impacto, musculação com um foco estratégico na região do core e alongamentos são atividades capazes de ajudar a fortalecer as regiões afetadas e dar amplitude aos movimentos, evitando futuras lesões. Ioga e pilates também são modalidades bem-vindas.

A longo prazo, esses exercícios trazem melhoras que vão muito além da postura, afinal, eles auxiliam no condicionamento cardiorrespiratório, reduzem o risco de doenças crônicas (como diabetes) e garantem mais disposição, garantindo uma vida mais saudável – e sem dores.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Você já ouviu falar em ECMO e como ela pode ajudar a salvar vidas?

De acordo com uma pesquisa publicada em 2021 pela The Lancet, uma das mais importantes revistas científicas sobre medicina do mundo, durante a pandemia, a taxa de mortalidade caiu 40% nos pacientes com Covid-19 que utilizaram a ECMO – ou oxigenação por membrana extracorpórea.

O Sabará Hospital infantil tem esse tratamento como parte da rotina de cuidados em alta complexidade, sendo a única instituição brasileira certificada com um dos mais importantes selos de qualidade para a Pediatria, o Elso (Extracorporeal Life Support Organization).

Para nos ajudar a entender a importância da utilização da ECMO, conversamos com o gerente médico responsável da Unidade de Terapia Intensiva, o pediatra Nelson Kazunobu Horigoshi.

O que é a ECMO?

A ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea) funciona como um coração e um pulmão artificiais para o paciente, que utiliza um sistema complexo que fica instalado fora do corpo.

Essa tecnologia imita a função natural do coração e dos pulmões, permitindo que o paciente poupe esses órgãos enquanto a cura acontece.

+ Leia também: Quais os principais equipamentos usados no tratamento da Covid-19?

Em que situações a ECMO pode ser utilizada?

Em pós-operatório de cirurgia cardíaca, doenças pulmonares graves, quadros de insuficiência cardíaca, traumas ou infecções muito graves, entre outros cenários.

Esse procedimento oferece algum risco?

A ECMO aumenta consideravelmente as chances de sobrevida. Entretanto, como toda técnica cirúrgica, envolve, sim, riscos ao paciente, que podem ir desde uma infecção até quadros mais sérios de hemorragia.

Felizmente, temos conseguido controlar esses riscos em níveis internacionalmente aceitáveis, para que o benefício de seu uso para um resultado favorável valha a pena.

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Todos os pacientes com algum grau de dificuldade respiratória ou cardiopatia utilizam esse tipo de técnica?

Não, a ECMO só é usada em casos muito graves, quando não há mais nenhuma outra opção de tratamento e a vida do paciente está em risco.

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É um recurso avançado que permite reverter situações, por vezes, dramáticas.

Qual é a importância da participação de uma equipe multidisciplinar no acompanhamento da criança em ECMO?

A ECMO é um procedimento altamente complexo e, no âmbito pediátrico, é ainda mais necessário ter uma equipe qualificada para realizar a técnica de forma adequada, garantindo toda a segurança ao paciente durante o processo.

A ECMO pode ser utilizada no tratamento infantil?

Sim. Essa é uma terapia que pode ser aplicada em todas as idades, inclusive entre recém-nascidos.

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Quanto tempo a criança fica na ECMO?

O tempo de tratamento depende muito da doença que comprometeu a saúde da criança. Pode ser algo relativamente rápido, por poucos dias, até terapias bem prolongadas, principalmente quando ela é utilizada como “ponte” para esperar algo como um transplante, por exemplo.

Há risco de sequelas ou efeitos colaterais?

Por ser um procedimento muito invasivo, com intuito de salvar um paciente com altíssimo risco de morte, ele pode trazer algumas complicações – quase sempre elas têm mais a ver com a doença do que com a ECMO em si.

Por isso, é importante aplicar a terapia no momento correto e em um centro qualificado, com uma equipe de profissionais treinados.

+ Leia também: Pneumonia infantil requer atenção (e quanto antes, melhor!)

Após a retirada do aparelho, qual o tempo de recuperação?

O tempo de recuperação também depende da doença que motivou o uso da ECMO. No entanto, esse recurso deve ser utilizado pelo menor tempo possível, até que o organismo mostre sinais de recuperação.

Após a retirada desse suporte, em geral nossos pacientes retornam a um estado anterior de criticidade, bem menos grave.

Por isso, utilizamos com critérios científicos esse último recurso que tem nos permitido resgatar vidas antes consideradas perdidas.

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Quer viver mais? Coma melhor!

Um estudo feito na Noruega mostrou que uma alimentação baseada em “comida de verdade”, com carnes magras, frutas, grãos integrais e castanhas, aumenta a expectativa de vida em até 13 anos.

A publicação ainda indica que, quanto mais cedo uma pessoa inicia esse padrão alimentar, mais anos de vida ela poderá ganhar. Esse é um grande motivo para ressignificar o estilo da alimentação, priorizando escolhas saudáveis.

Mas mudar os hábitos à mesa nem sempre é simples.

Mesmo sabendo dos inúmeros benefícios de comer de forma mais equilibrada, é muito fácil cair na tentação de recorrer àquele prato pronto congelado (cheio de sódio, gorduras e outros aditivos químicos) devido à praticidade e ao sabor. Isso acontece porque há vários fatores que influenciam a escolha alimentar. É o que chamo de “iceberg da alimentação”.

O que se come é a parte de fora do iceberg, aquela pontinha. Mas, embaixo d’água, há muito mais coisas que merecem atenção na dieta.

Fatores como hábitos, crenças, história de vida, experiências, sentimentos, pensamentos, sinais de fome e saciedade, disponibilidade, horário, tipo de ambiente, entre outros, exigem um olhar cauteloso se a intenção é colocar em prática uma mudança verdadeira no comportamento alimentar.

+ Leia também: Alimente-se sem perder o controle

Quem nunca comeu um chocolate por ansiedade, por exemplo? Se não há uma atenção em relação a esse impulso, e nem um esforço para pensar em outra coisa que resolva esse sentimento, fica muito mais difícil escapar do tal chocolate.

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Daí o conceito de “fome emocional”. Ou seja, não há sintomas físicos de fome, mas, sim, um estado emocional com o qual é difícil de lidar. Nesse cenário, os alimentos – geralmente os mais açucarados e gordurosos – acabam ativando o sistema de recompensa do cérebro, através da liberação de dopamina. Isso traz um alívio imediato, mas, ao mesmo tempo, de curta duração.

Assim, aquele sentimento volta a aparecer, porque o problema não foi resolvido. Com isso, busca-se mais comida. Essa bola de neve pode até gerar uma compulsão alimentar.

Esse hábito, que se torna quase que inconsciente, pode ser alterado. E a chamada Nutrição Comportamental possui estratégias e ferramentas para ajudar nisso. Quanto mais consciência e autoconhecimento, maiores as chances de mudança.

Dessa maneira, a alimentação saudável será um prazer, e não mais uma obrigação. Como ela deve ser.

*Renata Cabral é nutricionista comportamental

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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Rosto de faraó Ramsés II é reconstruído digitalmente

Ramsés II é considerado um dos faraós mais celebrados e mais poderosos do Império Egípcio, o período em que o Egito antigo estava no ápice de sua glória. Também conhecido como Ramsés, o Grande, viveu por 90 anos e reinou por 67, de 1279 a.C. até sua morte em 1213 a.C, sendo o segundo maior reinado da história egípcia. O faraó também é referenciado no livro de Êxodo e em várias produções audiovisuais sobre o Egito antigo, como no filme O Príncipe do Egito (1998).

Sua múmia (descoberta em 1881 e que agora está no Museu Nacional da Civilização Egípcia, no Cairo) mostra um homem de nariz adunco e mandíbula forte, com cerca de 1,7 metros de altura. A partir dela, um grupo de pesquisadores buscou criar uma visualização digital de seu rosto. Juntando tomografias computadorizadas, fotografias da múmia e dados históricos, os cientistas construíram a aparência de uma das figuras mais conhecidas do antigo Egito.

“Quando olhamos para um crânio pela primeira vez, inicialmente procuramos os detalhes característicos mais visíveis”, conta Caroline Wilkinson, antropóloga forense e líder do Face Lab na Liverpool John Moores University, no Reino Unido. “Por exemplo, Ramsés II tem um osso nasal muito largo. Ele fica entre os olhos e é muito alto e muito pronunciado.”

A múmia de Ramsés II, agora no Museu Nacional da Civilização Egípcia.Domínio Público/Wikimedia Commons

Depois que os pesquisadores determinaram a estrutura facial geral, eles inseriram as informações em um software também usado para reconstruções criminais.

O resultado é um homem velho com rosto comprido, nariz aquilino largo, olhos bem espaçados, sobrancelhas grisalhas grossas e boca larga com lábio superior fino.

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Depois de moldar o rosto, faltava dar cor à pele e cabelos. O tom de pele foi decidido baseado no que se acredita ser comum no Egito na época. Já a cor do cabelo foi baseada em estudos microscópicos de suas mechas, que sugerem que Ramsés II era ruivo.

A reconstrução inicial feita pelos cientistas, mostrando o rosto de Ramses II próximo de como estava em sua morte.The Face Lab at Liverpool John Moores University/Divulgação

Não contentes com a versão que conseguiram, a equipe se dispôs a rejuvenescer o faraó. Como ele foi mumificado aos noventa anos de idade, seu rosto foi congelado com as feições e estruturas de uma pessoa mais velha; sendo assim, os pesquisadores criaram uma versão mais jovem: um Ramsés II de meia-idade no auge de seu reinado.

“O processo de reconstrução facial retrata o rosto apenas na morte, pois o crânio e o rosto continuam a mudar ao longo da vida adulta”, afirma Wilkinson. “No entanto, sabemos como os crânios e rostos envelhecem, e é possível prever como uma pessoa parecia em uma idade mais jovem, removendo algumas das alterações esqueléticas e dos tecidos moles associadas à velhice, como rugas, nariz e orelhas caídas, papada e perda de dentes.”

Os pesquisadores foram além e refizeram seu modelo suavizando características da idade para recriar o rosto de um Ramsés II mais jovem.The Face Lab at Liverpool John Moores University/Divulgação

Embora não seja possível saber com exatidão se a reconstrução dos cientistas é fiel à aparência de Ramsés II, os pesquisadores estão otimistas. “Estamos muito bem; estamos bastante confiantes em prever a forma a partir dos detalhes do esqueleto”, afirma Wilkinson.

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Câncer: o que é biópsia líquida e para que serve esse exame

Não à toa a biópsia líquida é tão falada nos congressos médicos de oncologia. Para quem está tratando um câncer, é só mais um exame de sangue. O médico, no entanto, recebe informações valiosas que podem mudar o rumo do tratamento.

Esse exame é possível porque parte da informação genética dos tumores escapa para a corrente sanguínea. É o chamado DNA tumoral circulante (ctDNA). Ao identificar o tipo e características mais específicas do câncer, a prescrição de medicamentos, cirurgia e outros tratamentos tendem a ser mais acertados.

No caso de remédios, há as terapias-alvo, com moléculas desenvolvidas para atacar tipos bem específicos de tumores. Ao encontrar uma mutação na amostra de DNA, é possível usar fármacos feitos para ela.

+ Leia também: O papel da biópsia líquida no diagnóstico e no tratamento do câncer

Por outro lado, por ser uma tecnologia nova, ainda não é possível utilizá-la em todos os casos. Existem diversas análises genéticas possíveis, mas hoje ela é mais utilizada em quadros já mais graves.

“A biópsia líquida já é efetiva quando se trata de um câncer avançado, com metástase, justamente por esses traços serem mais detectáveis na corrente sanguínea”, explica o oncologista Rodrigo Dienstmann, diretor de Medicina de Precisão no Grupo Oncoclínicas.

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Ela poderá ser, no futuro, uma alternativa a biópsia tradicional, feita pela análise do próprio tumor em laboratório ou de tecidos do órgão atingido. Essa opção ainda é mais indicada e considerada o padrão ouro no diagnóstico do câncer e definição do tratamento.

Em alguns cenários, ela seguirá insubstituível. “Cânceres pediátricos raros e cerebrais são alguns dos tipos que sempre exigirão a análise usual, porque eles não deixam esse rastro no sangue”, exemplifica o médico.

O exame de alto custo também ainda não é coberto pelos planos de saúde, mas Dienstmann acredita que isso deve mudar em breve para alguns cenários.

+ Leia também: Medicamento inovador contra câncer de pulmão é aprovado pela Anvisa

Biópsia líquida para evitar a quimio

Para além dos estágios mais avançados da doença, esse exame ainda é pouco acessível. Um exemplo de uso possível é quando a biópsia líquida é utilizada para verificar se há doença residual mínima após a retirada do tumor.

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É comum passar por quimioterapia ou radioterapia depois dessas intervenções para evitar o risco de serem deixados resquícios da doença no organismo que podem fazer o câncer voltar um tempo depois.

Quem tem a chance de passar por esse exame e não identificar mais traços cancerígenos pode pular essas sessões, que deixam o indivíduo debilitado.

“Essa é uma tecnologia com um potencial gigante, mas ela é mais sensível e complexa, ainda estamos entendendo como funciona, por isso é mais vista em estudos”, afirma Dienstmann.

O médico conta que o maquinário utilizado nesse cenário é o mesmo dos quadros avançados, mas a dificuldade de análise é o que impacta a viabilidade.

Laboratórios brasileiros oferecem a tecnologia, porém no mundo hoje há apenas duas grandes empresas com profissionais capacitados a fazer essa investigação, e elas estão concentradas nos Estados Unidos. “Todos os outros países ainda dependem de enviar o material para lá, por isso tem um alto custo”, explica o médico.

No que compete às pesquisas, os resultados são animadores. Um estudo divulgado no ano passado usou a biópsia líquida para avaliar se 455 pacientes que foram operados para retirar um tumor no cólon teriam resquícios da doença. O grupo foi dividido em dois grupos: 302 fizeram o exame e outros 153 seguiram o tratamento sem a investigação sanguínea.

+ Leia também: Câncer, maior congresso aponta avanços e retrocessos

As pessoas que passaram pelo exame e não encontraram vestígios tumorais foram poupadas da quimioterapia. Mesmo sem ela, três anos depois tiveram um risco baixo de retorno da doença comparado aos que seguiram os passos tradicionais.

“Com mais acesso será possível superpersonalizar o tratamento, reduzir as sessões de quimioterapia ou escaloná-las quando o caso precisar de atuação mais agressiva”, diz o médico.

Existe ainda uma outra possibilidade, ainda sendo estudada, de usar a biópsia líquida para rastrear precocemente alterações genéticas que podem identificar o desenvolvimento de um câncer.

Outro desafio de ampliar o uso da biópsia líquida é em relação ao conhecimento de genética de médicos e profissionais que atuam nesses laboratórios. “Não é exatamente falta de formação, mas são tecnologias novas que ainda estão sendo chegando ao mercado”, avalia o oncologista.

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O “influenciador da inclusão” que entregou a faixa ao presidente Lula

Nas redes sociais, o pedagogo potiguar Ivan Baron, de 24 anos, é conhecido como o “influenciador da inclusão”.

Nascido em Natal, ele ganhou visibilidade em 2021 ao postar um vídeo no Tik Tok corrigindo a fala de uma das participantes do Big Brother Brasil, da TV Globo.

A certa altura, a cantora Juliette perguntou ao economista Gil do Vigor se ele era “aleijado”. No vídeo, o influenciador digital explica que, entre outras palavras capacitistas, “aleijado” é uma maneira depreciativa de se referir a pessoas com deficiência física.

“Não cancelem a Ju por essa fala desnecessária!”, pediu aos seguidores. “O capacitismo é algo tão enraizado que a gente acaba reproduzindo sem a menor intenção”. À época, o perfil de Juliette, que estava confinada no reality show, agradeceu o conselho, compartilhou a publicação e avisou que, assim que ela deixasse o programa, repassaria a mensagem.

Juliette não foi a única celebridade a ser corrigida pelo ativista das pessoas com deficiência (PcD). O roqueiro Supla, a apresentadora Ana Maria Braga e a cantora Mara Maravilha também já ganharam vídeos explicativos, mas, sempre em tom bem-humorado, por usarem termos pejorativos como “anão”, “linguagem dos sinais” e “débil mental”, respectivamente.

O correto, explica Baron, é falar: “pessoa com nanismo”, “língua brasileira de sinais” e “pessoa com deficiência intelectual”. “O erro mais comum é tratar pessoas com deficiência como ‘deficientes’. Quando se usa esse termo, resume a pessoa à sua deficiência. Somos, antes de qualquer coisa, pessoas e exigimos respeito!”.

Nesse quesito, até o presidente Lula já cometeu o que Baron chama de “gafe capacitista”: em um de seus discursos, errou ao dizer “portadores de deficiência”.

O capacitismo é o nome dado ao preconceito sofrido por pessoas com deficiência. Existem, pelo menos, seis tipos: física, visual, auditiva, intelectual, psicossocial e múltipla, quando há duas ou mais deficiências associadas.

Ivan Baron com o traje desenhado para a cerimônia de posse de Lula.Foto: Audrey Luiza/Divulgação
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A pessoa é capacitista quando acredita que a PcD é incapaz de realizar determinada tarefa ou, ainda, quando faz piadas ofensivas ou tece comentários danosos, como “Nossa, que mancada!”, “Deixa de ser retardado!” e “Parece que é cego!”. “Explicar que o capacitismo pertence à mesma família do racismo e, como tal, precisa ser duramente combatido é o que procuro fazer diariamente”, conta Baron.

O convite para participar da cerimônia de posse do presidente Lula aconteceu na última semana de dezembro quando ele recebeu uma ligação da futura primeira-dama, a socióloga Rosângela Lula da Silva, a Janja. Ivan Baron foi um dos oito representantes da sociedade civil que, na ausência do antecessor, entregaram a faixa presidencial ao candidato eleito.

“Janja foi direto ao ponto. Me fez o convite e, de cara, aceitei. Nem pensei duas vezes”, responde o defensor de políticas de inclusão para PcD. Os outros “representantes do povo brasileiro” foram Francisco, de 10 anos, estudante; Aline Sousa, de 33, catadora; Raoni, 93, liderança indígena; Wesley Rocha, 36, metalúrgico; Murilo Jesus, 28, professor; Jucimara dos Santos, 45, cozinheira; e Flávio Pereira, 50, artesão.

Na cerimônia de posse, Baron vestiu um terno branco onde se lia, na parte de trás, a frase: “Parem de nos excluir”. Outras palavras estampavam o figurino, desenhado pelos estilistas Victor Hugo Souliver e Juliana Gomes da Silva, como “inclusão”, “esperança” e “acessibilidade”.

O ativista beijando o novo presidente.Foto: Kayo Souza/Divulgação

Referência na luta anticapacitista, Baron tem paralisia cerebral desde os 3 anos, quando contraiu meningite viral. É formado em pedagogia, já escreveu um e-book (Guia Anticapacitista) e dá palestras em escolas sobre temas como inclusão e acessibilidade.

Nas redes sociais, registra 1,1 milhão de seguidores — 637 mil no Tik Tok e 469 mil no Instagram. “Tive paralisia cerebral. Mas, apesar do nome, isso nunca me paralisou”, orgulha-se, sempre bem-humorado.

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O “influenciador da inclusão” que entregou a faixa ao presidente Lula Publicado primeiro em https://saude.abril.com.br