quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Crânio de 160 mil anos pode ter pertencido a um denisovano

Os denisovanos são uma espécie extinta de hominídeos, contemporâneos ao Homo sapiens e aos neandertais. O nome vem da caverna de Denisova, na Sibéria, onde, na década de 2000, saíram os primeiros indícios de sua existência.

Eles eram tão parecidos conosco que podíamos transar e produzir bebês viáveis. E, sim: esses cruzamentos deixaram vestígios em nosso genoma. No leste e sudeste da Ásia, por exemplo, 1% do DNA é de origem denisovana; nos nativos de Papua Nova Guiné, na Oceania, 6%.

Apesar disso, ainda sabemos pouco sobre os denisovanos. Até hoje, só cinco fósseis deles (e um híbrido) foram identificados por análises de DNA ou proteínas. Mas um novo candidato pode ter aparecido.

Recentemente, cientistas anunciaram a reconstrução do crânio de um indivíduo que viveu entre 160 e 200 mil anos atrás. O trabalho foi feito juntando três fragmentos de ossos que, até então, haviam sido estudados apenas separadamente.

O crânio (bem como o indivíduo a quem ele pertencia) foi chamado de Xujiayao 6. Xujiayao é o sítio arqueológico no norte da China de onde os tais fragmentos saíram. O local começou a ser escavado nos anos 1970. Desde então, 21 fósseis de 10 hominídeos foram encontrados. São pedaços de dentes, mandíbulas – e crânios.

A reconstrução do Xujiayao 6 (ou XJY 6) revelou que o cérebro do indivíduo tinha um volume entre 1.555 e 1.781 centímetros cúbicos. É um tamanho grande para a época, quando a média entre os hominídeos era de 1.200 cm3. É maior, inclusive, que a dos sapiens modernos.

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O tamanho do crânio do Xujiayao 6 é semelhante ao dos neandertais. Se XJY 6 for mesmo um denisovano, faz sentido. Acredita-se que os denisovanos tenham divergido dos neandertais há 400 mil anos, e dos heidelbergensis (o hominídeo africano que deu origem também ao sapiens e aos neandertais) há 600 mil. Ou seja: eram mais parecidos com os neandertais do que conosco.

Outros indícios que apontam para a hipótese são a localização de Xujiayao, o tamanho dos dentes do XJY 6 (grandes como os de denisovano) e as semelhanças desse crânio com outro fragmento: o crânio de Harbin.

Esse fóssil foi encontrado em 1933 na cidade de Harbin, extremo leste da China, mas só em 2018 ele foi doado à ciência. Pelas suas características, os pesquisadores propuseram, em 2021, classificar o crânio como uma nova espécie de hominídeo, a Homo longi (“Homem dragão”). Mas outra hipótese defende que, na verdade, o crânio de Harbin pertenceu a um denisovano.

Apesar dos indícios, ainda é cedo para cravar uma definição. “É uma possibilidade que o XJY 6 esteja relacionado aos denisovanos”, disse à New Scientist Xiu-Jie Wu, da Academia Chinesa de Ciências em Pequim e líder do estudo. “Mas como ainda não temos confirmação de como são os crânios denisovanos, são necessárias mais evidências para provar.”

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Em 2030, 68% dos brasileiros poderão estar com excesso de peso

O ano de 2030 parece estar longe, mas uma projeção com dados alarmantes mostra como poderão estar os brasileiros daqui a oito anos. Segundo o estudo “A Epidemia de Obesidade e as DCNT – Causas, custos e sobrecarga no SUS“, até lá, 68% dos brasileiros estarão com sobrepeso e 26% serão obesos.

Os números já vêm subindo no Brasil. A prevalência do excesso de peso aumentou de 42,6%, em 2006, para 55,4% em 2019. Já a obesidade saltou de 11,8% para 20,3% no mesmo período.

Os dados revelam que o risco de diversas doenças crônicas não transmissíveis associadas a essa situação é o mais preocupante e pode levar a consequências impactantes para o Sistema Único de Saúde (SUS). Afinal, o acúmulo excessivo de gordura corporal está ligado ao aumento no risco de mais de 30 doenças desse tipo, em maior ou menor grau.

Esses quadros são causados por diversos fatores, podem ficar um longo período ocultos e afetam pessoas por muitos anos, elevando a probabilidade de incapacidades funcionais. As doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas, as neoplasias (cânceres) e a diabetes são exemplos.

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O principal motivo para o aumento de peso não vem exclusivamente de hábitos alimentares individuais, segundo Leandro Rezende, coordenador do estudo, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“O excesso de peso e a obesidade vêm aumentando no mundo pelas causas populacionais, que são um conjunto de mudanças especialmente no sistema alimentar. Elas foram ocorrendo a partir das décadas de 1970, 1980, a partir de alterações nas leis agrícolas, de marketing e de processamento dos alimentos”, avalia Rezende.

Por isso, as estratégias de combate à obesidade precisam ser coletivas.

“Olhamos para o tabagismo, por exemplo, como fenômeno populacional, e propusemos uma estratégias de prevenção. Conseguimos sair de uma prevalência de 30%, 40% de tabagistas no Brasil para menos de 10% atualmente”, avalia o professor.

Políticas públicas

Uma das estratégias sugeridas no estudo são a adoção de políticas públicas e de ações voltadas à redução do consumo de alimentos ultraprocessados.

A tributação desses produtos, a incorporação de informação nutricional mais clara e simples no rótulo e a restrição para marketing e publicidade  são exemplos de medidas de âmbitos social e coletivo.

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Um exemplo é a campanha Tributo Saudável, que tem como objetivo aumentar o imposto de bebidas açucaradas para desestimular o consumo e, ao mesmo tempo, trazer impactos positivos para a economia.

No “Plano de Ações Estratégicas para enfrentamento das DCNT no Brasil (2021-2030)“, o Ministério da Saúde estipulou a meta de deter o crescimento da obesidade em adultos no país até 2030.

Impacto no sistema de saúde

Estar com sobrepeso e obesidade não custa caro somente para o indivíduo, mas também para a saúde coletiva. Somente em 2019 o gasto direto com as doenças crônicas atingiu R$ 6,8 bilhões no país.

+ LEIA TAMBÉM: OMS quer reduzir consumo de sódio em 30% e cria limites para processados

O grupo de pesquisadores do estudo estimou que 22% desse valor (R$ 1,5 bilhão) podem ser atribuídos ao excesso de peso e à obesidade, com custos um pouco mais elevados em mulheres (R$ 762 milhões) do que nos homens (R$ 730 milhões).

O levantamento mostrou que, além dos custos, foram 128,71 mil mortes, 495,99 mil hospitalizações e 31,72 milhões de procedimentos ambulatoriais realizados pelo SUS – tudo atribuível ao excesso de peso e à obesidade.

Guia Alimentar

Na visão dos pesquisadores, o Guia Alimentar para a População Brasileira também constitui uma das estratégias para implementação da diretriz de promoção da alimentação adequada e saudável que integra a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN).

Os guias contribuem para a melhora dos padrões de dieta e nutrição e para a promoção da saúde das populações, já que os hábitos alimentares e as condições de saúde se modificam ao longo do tempo.

Recomendações gerais do Guia

+ Base da alimentação: alimentos in natura ou minimamente processados, variados e predominantemente de origem vegetal;
+ Utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar;
+ Limitar o consumo de alimentos processados (conservas, compotas, queijos, pães);
+ Evitar o consumo de ultraprocessados;
+ Comer com regularidade e atenção;
+ Fazer compras em feiras e mercados que ofertem variedades de alimentos in natura e minimamente processados;
+ Desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias, principalmente com crianças e jovens;
+ Planejar a alimentação: da compra e organização dos alimentos até a definição do cardápio e a divisão das tarefas domésticas relacionadas ao preparo das refeições;
+ Uma vez fora de casa, preferir comer em locais que sirvam refeições frescas (restaurantes de comida caseira ou por quilo);
+ Ser crítico quanto à publicidade de alimentos, que tem como único objetivo o aumento da venda de produtos.

*Esse texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil

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O que aprendemos com a Covid-19 e como será o amanhã?

Por toda minha vida profissional, me perguntei como seria viver um fato histórico disruptivo. Eis que, em março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a Covid-19 como uma pandemia, estávamos diante de um deles.

Ainda não tínhamos ideia do que aconteceria, muitos nem acreditavam que o problema durasse muito tempo, mas a realidade é que, quase dois anos depois da confirmação do primeiro caso no Brasil, ainda enfrentamos e nos recuperamos de uma das piores crises sanitárias de todos os tempos, que levou a vida de mais de 620 mil brasileiros.

A pandemia representa um marco terrível para a história da humanidade, ao mesmo tempo em que precipitou mudanças de comportamento e no mercado.

Não bastassem os impactos na área da saúde, os efeitos negativos se estendem à economia: um dos grandes reflexos foi o aumento do desemprego. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego no Brasil é de 12,6%, ou 13,5 milhões de cidadãos.

+ LEIA TAMBÉM: Tire 7 dúvidas sobre isolamento e testagem por Covid-19

Fora isso, a pandemia afetou aspectos socioeconômicos globais, produzindo recessão e dificultando acesso à alimentação, à educação e aos cuidados com a saúde, principalmente em países marcados por desigualdade social, como o nosso.

Em nenhuma das crises sanitárias do século 21 o número de mortes foi tão alto ou exigiu do Estado a injeção de recursos financeiros em escala tão elevada.

Por tudo isso, a pandemia do coronavírus ensinou a necessidade de construirmos uma agenda de saúde pública com uma perspectiva integral e integrada, que reconheça a interdependência que existe entre as dimensões sanitária, social, econômica e ambiental.

Se o controle da Covid-19 tivesse sido mais rígido no Brasil desde o início, com o isolamento social e a criação de auxílio para as famílias mais pobres, não teríamos encarado um cenário de lotação de UTIs, ausência de insumos básicos e carências diversas para a população, sendo emblemático o que foi presenciado em Manaus com a falta de oxigênio em hospitais.

Felizmente, mas sem esquecer dos que se foram, o cenário foi mudando com o avanço da vacinação, e os sistemas de saúde conseguiram se desafogar.

Mas outra preocupação aparece em nosso horizonte como consequência da pandemia. A brecha que se abriu com a falta de acompanhamento médico de outras doenças devido à necessidade de isolamento social e lotação de hospitais dedicados à Covid-19 repercute na falta de diagnóstico e tratamento médico, inclusive para problemas como o câncer.

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De acordo com um estudo da Universidade de São Paulo (USP) coordenado pelo professor Nivaldo Alonso, cerca de 1 milhão de procedimentos cirúrgicos foram desmarcados ou adiados. Com a menor atenção e procura para a detecção e o tratamento de outras enfermidades recorrentes, as chances de cura podem ser menores.

Esse é certamente um dos principais desafios para o setor médico público e privado, ainda mais num contexto de nova alta nos casos de Covid-19.

A solução passa por acelerar a digitalização dos sistemas de saúde, ampliar o acesso às teleconsultas e estimular a procura do sistema de saúde, seguindo os protocolos de segurança, na presença de sintomas suspeitos.

Com tantos efeitos negativos trazidos pela pandemia, o questionamento que fica é o que conseguimos aprender com ela. Talvez a primeira das lições foi valorizar a ciência e as instituições de pesquisa e o sistema de saúde pública.

A segunda, e não menos importante, foi valorizar as relações humanas, o afeto e o cuidado com o próximo. Também aprendemos a melhorar nossos hábitos de higiene e nos adaptamos a um novo formato de vida, em que boa parte das atividades pode ser feita à distância.

+ LEIA TAMBÉM: A variante Ômicron pode representar o fim da pandemia?

Ainda nos perguntamos quando a pandemia vai acabar ou se isso pode acontecer um dia, mas as respostas divergem mesmo entre a comunidade científica.

Encontrar maneiras de desacelerar a propagação de uma doença e controlar os seus efeitos é o caminho mais seguro. A testagem e a vacinação em massa fazem toda a diferença nesse sentido. E isso vale para todo o mundo.

Muito provavelmente, nossa sociedade conviverá com o coronavírus por anos, como ocorre com a gripe, o que exigirá atenção frequente, medidas de higiene e proteção e doses de reforço das vacinas.

Para evitar novas epidemias, a estratégia mais efetiva é a vigilância, ou seja, monitorar zoonoses e infecções emergentes. Existem locais mais propícios para o aparecimento de patógenos que conseguem passar de animais para seres humanos, como regiões que não possuem saneamento básico e acesso à educação sanitária e que praticam o abate e comércio de animais sem os devidos cuidados. Eles devem ser encarados como pontos de atenção!

Além disso, é necessário reforçar o papel de bem público das vacinas existentes, instituindo mecanismos de financiamento e campanhas de saúde pública que possam informar a população sobre os imunizantes e eventuais novas doenças. Esse é o legado mínimo da Covid-19.

* Euclides Matheucci Jr. é professor e orientador no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e cofundador e diretor científico da empresa de biotecnologia DNA Consult

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Radar da Saúde: Falta de saneamento básico faz brasileiros adoecerem

Viroses por trás de diarreias, dengue, leptospirose, verminoses… A carência de saneamento básico é um prato cheio para infecções e doenças parasitárias de veiculação hídrica.

E essa ainda é uma realidade preocupante no Brasil, onde mais de 30 milhões de pessoas vivem em locais sem água tratada e 100 milhões não têm acesso a coleta de esgoto.

O cenário é propício aos achados de um levantamento do Instituto Trata Brasil. Pegando dados consolidados de 2019, ainda antes da pandemia, a entidade computou 273 403 internações por doenças de veiculação hídrica — 30 mil a mais que no ano anterior.

O maior índice de hospitalizações foi registrado no Nordeste: ali, só 28% dos cidadãos contam com coleta de esgoto.

O trabalho aponta a necessidade de não perder tempo com a devida implementação do Marco Legal do Saneamento, que prevê a universalização desse serviço no país até 2033.

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<span class="hidden">–</span>Ilustração: Elisa Moura/SAÚDE é Vital

Passado: 50 anos do remédio que inibe a rejeição nos transplantes

Originária de um fungo, a ciclosporina é mundialmente reconhecida por seu papel imunossupressor, ou seja, ela ajuda a impedir que o sistema imune se volte contra um órgão transplantado ou contra alguma região do próprio corpo.

A descoberta desse efeito veio à tona após experimentos feitos por funcionários do laboratório Sandoz, na Suíça, em janeiro de 1972.

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Futuro: Uma córnea alternativa para curar a cegueira

Milhões de pessoas pelo mundo ficam sem enxergar devido a danos à córnea e na dependência de um transplante, obtido de um doador.

Mas cientistas da Universidade de Bradford, na Inglaterra, criaram um polímero que mimetiza a estrutura dessa lente natural e, instalado no olho, passa a abrigar células-tronco do próprio paciente para formar uma nova córnea.

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+ Leia também: Radar da saúde: a vacina contra o câncer já está entre nós

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Um lugar: África Subsaariana ganha vacina contra a malária

O primeiro imunizante usado em larga escala diante dessa doença, que mata anualmente mais de 260 mil crianças com menos de 5 anos, pode virar o jogo em países como Quênia, Malaui e Gana.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está recomendando a nova vacina, produzida e testada pela farmacêutica GSK, a crianças em risco nessa região do continente africano.

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Um dado: 65% das prescrições de químio alteradas após teste genético

Um estudo do Fleury, do Hospital Pérola Byington e da Santa Casa de São Paulo constatou, após a realização do exame Oncotype DX, que o regime terapêutico de 117 das 179 pacientes com câncer de mama avaliadas deveria sofrer algum tipo de mudança — boa parte delas, com indicação inicial de quimioterapia, teria mais benefício com o tratamento hormonal isolado.

+ Leia também: Radar da saúde: o dramático impacto mental da pandemia entre os jovens

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Uma frase: Matt Haig

“A solidão não é uma ausência de companhia. A solidão é sentida quando estamos perdidos. Mas podemos estar perdidos mesmo em meio a uma multidão. Não há nada mais solitário do que estar com pessoas que não estão na mesma sintonia que nós. A cura para a solidão não é mais gente. A cura para a solidão é compreender quem somos.”

Matt Haig, escritor britânico, no recém-lançado O Livro do Conforto, da Editora Intrínseca (clique aqui para comprar)

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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Open health: novas tecnologias, velhas ideias e muito risco

A proposta de Open Health apresentada pelo Ministro da Saúde, que planeja a criação de um modelo de intercâmbio de dados de saúde de consumidores e pacientes para ser acessado por empresas, é preocupante e deixa vários pontos abertos.

A ideia é que o sistema funcione nos moldes do que acontece com o Open Banking, que possibilita ao consumidor consentir em compartilhar seus dados com instituições financeiras para receber serviços personalizados dos bancos.

As diferenças substantivas entre o setor saúde e o setor bancário, no entanto, já são suficientes para questionar a proposta.

O ministério não apresentou como pretende superar os desafios da fragmentação de sistemas de informação em saúde e da falta de segurança em suas próprias bases de dados, alvos constantes de incidentes de segurança, ou como vai assegurar o direito à proteção de dados pessoais.

Sem falar que parte de premissas erradas sobre a ampliação do acesso à saúde por via de tecnologias da informação.

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Ao contrário dos dados do sistema financeiro (base do Open Banking), os dados de saúde estão muito dispersos em diversos sistemas de informação, públicos e privados.

Além disso, os sistemas de informação ainda enfrentam desafios importantes de abastecimento e de interoperabilidade, ou seja, muitas vezes não são devidamente alimentados com as informações sobre o que acontece na prática e não são compatíveis entre si. A proposta de Open Health precisaria superar esse desafio.

Para além do desafio logístico, essas informações de saúde também são muito mais delicadas. De acordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), falamos de dados pessoais sensíveis e que são protegidos por outras normas, como regras de sigilo entre usuário e profissional de saúde.

Essa questão reforça a necessidade de segurança em torno dessas informações. O Ministério da Saúde, por sua feita, protagonizou desde o início da pandemia preocupantes incidentes de segurança, envolvendo vazamentos, omissão de dados abertos e alteração irregular de dados pessoais.

O Idec acompanha de perto esses incidentes e, após o primeiro, em 2020, moveu uma representação ao Ministério Público Federal (MPF), que hoje se tornou um inquérito que investiga a dimensão dos vazamentos e a responsabilidade do Ministério nos casos.

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No mesmo sentido, o Instituto defende a adoção de uma política robusta de informação, informática e saúde que contemple as preocupações com a segurança de dados.

A proposta também precisa assegurar o direito à proteção de dados pessoais, garantido pela Constituição Federal e pela LGPD.

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No caso de saúde, uma preocupação relevante é o uso de dados pessoais por operadoras de planos de saúde para traçar perfis do usuário e, assim, negar cobertura com base no seu histórico, alegando a presença de doenças e lesões preexistentes. A depender da atitude da operadora, a prática configura infração ao art. 11, §5º da LGPD, que veda seleção de risco.

As críticas ao ministério, no entanto, não devem esconder que as tecnologias de informação e comunicação – por exemplo, a consolidação de prontuários eletrônicos unificados – devem ser um objetivo do SUS, de modo a ampliar o acesso e melhorar a eficiência do serviço público.

Entretanto, é fundamental que esses avanços sejam focados no sistema público e com uma política robusta de segurança, que assegure a proteção de dados pessoais dos usuários.

A consolidação da saúde digital no Brasil tem que ser um foco máximo do Ministério da Saúde, mas sua prioridade deveria ser fortalecer o SUS, proteger os dados pessoais dos usuários – tanto de vazamentos quanto de uso indevido pelo setor privado – e, principalmente, melhorar a qualidade da assistência ao usuário.

Dessa maneira, é precipitado pensar em uma operacionalização do open health por meio de medida provisória, sem providências prévias de segurança da informação no Ministério da Saúde e sem envolvimento do setor e da sociedade civil.

O mínimo que se espera de uma discussão como essa, que envolve mais de um órgão regulador e os setores público e privado, é que ela seja precedida de todos os meios disponíveis de participação social.

*Camila Leite Contri é advogada e pesquisadora do programa de Direitos Digitais do Idec e Matheus Falcão é advogado e pesquisador do programa de Saúde do Idec

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Como realmente tirar proveito dos suplementos vitamínicos?

Muitos de nós crescemos tomando vitaminas como parte de nossa rotina diária. Embora existam inúmeros artigos científicos sobre os benefícios desses nutrientes e dos suplementos que os fornecem, poucos sabem que existe um momento certo para o consumo.

Uma pesquisa recente conduzida pela Herbalife Nutrition e o Council for Responsible Nutrition, baseado nos Estados Unidos, envolvendo 24 países e 13 mil pessoas, revela que, atualmente, 89% dos entrevistados tomam medidas para melhorar a saúde e uma das principais é o uso de suplementos vitamínicos. Mas é preciso esclarecer alguns pontos para tirar o devido proveito disso.

Em primeiro lugar, é importante compreender que os suplementos complementam uma dieta saudável, mas não compensam uma alimentação ruim. A nutrição adequada é a base de tudo.

Multivitamínicos e afins são valiosos para garantir que se obtenham todos os nutrientes necessários para o corpo, só que não substituem refeições nutritivas.

Por isso, antes de investir em suplementos, é fundamental consultar um médico ou nutricionista, que individualizará as recomendações com base na idade e no estado de saúde geral e verificará a compatibilidade desses produtos com os medicamentos que o paciente está usando.

+ Leia também: Vitamina para queda de cabelo? Melhor não tomar, alertam médicos

Esses profissionais também orientarão o momento ideal de consumo das vitaminas. Muitos suplementos precisam ser ingeridos com alimentos ou água, uma vez que o processo de digestão ajuda a “quebrá-los”.

Além disso, algumas pessoas podem sentir náusea ao ingeri-los de estômago vazio. Isso acontece principalmente com o ferro, o magnésio e o óleo de peixe (ômega-3), que podem irritar o trato digestivo e fazer a pessoa desistir da suplementação.

Fora os complementos vitamínicos, alguns indivíduos podem precisar de suplementos proteicos. Isso acontece quando o consumo de proteínas nas três principais refeições está aquém do adequado.

Uma estratégia, nesse caso, é incluir um suplemento (por meio de shakes ou barras, por exemplo) logo no café da manhã. A proteína não só fornece energia como é essencial para manter o sistema imune saudável, ainda mais quando fazemos exercícios.

Boa parte das vitaminas também é mais bem aproveitada pela manhã. Daí a sugestão de tomar multivitamínicos nesse momento. Vitaminas do complexo B, por exemplo, estimulam o metabolismo e o desempenho cerebral, dando um gás para encarar o dia.

Aliás, verifique na composição se a fórmula apresenta também cafeína: o ideal é evitar consumi-la seis horas antes de adormecer para não atrapalhar o sono.

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Rotina vitaminada

Outras vitaminas são decisivas para o nosso bem-estar e, com alguma frequência, estão em falta no organismo. É o caso da vitamina D, que atua na absorção de cálcio no intestino e cuja carência leva a osteoporose e outras doenças crônicas. Ainda que seja obtida via exposição solar, muita gente tem de suplementá-la para alcançar os níveis preconizados.

E temos a vitamina C, que contribui para a absorção do ferro e estimula nossos mecanismos de defesa contra infecções. Ela deve ser ingerida diariamente, uma vez que o corpo não a armazena.

As vitaminas solúveis em gordura A, D, E e K são mais bem absorvidas quando ingeridas com a refeição ou lanche que contenha pelo menos uma colher de chá de gordura (5 gramas). O mesmo se aplica aos suplementos multivitamínicos que carregam essas vitaminas.

Outra substância interessante para a hora do almoço é a leucina, um aminoácido que também é útil antes ou depois do exercício por ajudar na preservação da massa muscular.

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Já o cálcio, tão importante para a saúde óssea, dissolve-se melhor em ambiente ácido quando se apresenta em fórmulas à base de carbonato de cálcio, o que pede o uso junto às refeições; na forma de citrato de cálcio, porém, pode ser ingerido a qualquer momento.

O  óleo de peixe rico em ômega-3, que reduz a inflamação excessiva e oferece benefícios para o coração, os olhos e o cérebro, deve ser utilizado antes das refeições para diminuir o risco de uma eventual indigestão.

Pensando no período noturno, ainda de acordo com a pesquisa que citei no início deste texto, não dormir bem apareceu como o terceiro hábito não saudável mais comum entre os milhares de entrevistados. E cabe observar que alguns suplementos podem ajudar no relaxamento e no sono.

Tomar magnésio antes de dormir, por exemplo, tende a nos deixar mais sonolentos, além de manter os ossos fortes e aliviar dores musculares. Estudos indicam que o micronutriente contribui para afastar a ansiedade e favorece um sono mais profundo.

Ter boa saúde envolve seguir uma rotina. Lembre-se de se alimentar bem, dormir o suficiente e fazer exercícios. Saber quais suplementos consumir e quando tomá-los também faz parte do plano.

* David Heber é Ph.D. em fisiologia pela Universidade da Califórnia (UCLA), fundador e ex-diretor do Centro de Nutrição Humana da mesma universidade e hoje preside o Herbalife Nutrition Institute (HNI), que promove educação nutricional para o público e para a comunidade científica

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A lista de exigências de Albert Einstein para “salvar” o seu casamento

Albert Einstein e Mileva Marić se conheceram em 1896. Eles ingressaram juntos na Universidade Politécnica de Zurique, na Suíça, na turma de física e matemática. Havia ainda outros três alunos – Marić era a única mulher.

Desde o início, Albert e Mileva se tornaram inseparáveis. Eles estudavam juntos e, no verão, trocavam correspondências apaixonadas. Em 1900, Einstein arriscou um poema para a crush. Depois, enviou um esboço do seu pé, para que ela pudesse tricotar um par de meias para ele. Fofo, não?

Mas a paixão não foi eterna. Eis aqui uma lista elaborada pelo físico alemão em 1914 direcionada à Mileva (na época, os dois já estavam casados):

“CONDIÇÕES

A. Cabe a você fazer com que

  1. minha roupa esteja sempre limpa e em ordem;
  2. eu receba minhas três refeições normalmente em meus aposentos;
  3. meu quarto e meu escritório estejam sempre bem-arrumados e, principalmente, que minha escrivaninha seja usada apenas por mim.

B. Você se absterá de quaisquer relações pessoais comigo, a menos que sejam absolutamente necessárias por motivos sociais. Sobretudo, você abrirá mão de

  1. minha companhia em casa;
  2. sair ou viajar comigo.

C. Você observará os seguintes pontos em suas relações comigo:

  1. não esperará nenhuma intimidade de minha parte, nem me repreenderá de forma alguma;
  2. parará de falar comigo, quando eu lhe pedir;
  3. sairá de meu quarto ou de meu escritório imediatamente e sem objeções, quando eu lhe pedir.

D. Você se comprometerá a não me depreciar, com palavras ou atos, diante de nossos filhos.”

A lista foi um dos vários documentos de Einstein encontrados em 1986, 31 anos após a morte do cientista (a tradução acima veio do livro Listas extraordinárias, de Shaun Usher). As cartas estavam guardadas em um cofre de banco em Berkeley, nos EUA, e foram a leilão na década seguinte. Esses registros revelaram informações inéditas a respeito da vida acadêmica e, sobretudo, particular de Einstein. 

Metódica, inusitada, abusiva. Seja qual for a definição que prefira dar para a lista de exigências de Albert, ela deixa claro: o seu casamento com Mileva estava em ruínas. O casal se separou ainda em 1914, e o divórcio foi oficializado em 1919. Mas, afinal, o que aconteceu? Como um jovem casal de cientistas apaixonados terminou assim?

Prazer, Mileva Marić

Nascida na Sérvia em 1875, Mileva veio de uma família rica e, desde pequena, demonstrou paixão e empenho pelos estudos. Reservada, ela era descrita como alguém “brilhante, mas não muito falante”. Em 1892, seu pai, Miloš, conseguiu uma autorização do ministro da Educação sérvio para que a filha frequentasse aulas de física em que apenas meninos eram permitidos.

Durante a faculdade, Mileva tirava notas altas. Mais altas, inclusive, que as de Einstein. Em 1900, prestes a se formar, ela foi aprovada em todos os testes – menos no exame oral. O avaliador aprovou todos os alunos homens, mas Mileva quase zerou. Ela tentou novamente no ano seguinte, mas também foi reprovada. Nunca conseguiu obter o seu diploma.

Não que isso a impedisse de continuar sua carreira como cientista. Mileva era a parceira de crime de Einstein: revisava cálculos, pesquisava dados científicos e ouvia ativamente as ideias do físico que, mais tarde, dariam origem às suas famosas teorias. Documentos históricos e biografias sobre Mileva apresentam evidências sólidas de que ela foi uma peça importante para o desenvolvimento da ciência de Einstein.

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Lua de mel

Albert e Mileva continuaram juntos após a faculdade, apesar da desaprovação da família de Einstein. A mãe do físico, Pauline, era contra o filho namorar alguém quatro anos mais velho que mancava, não era alemã (tampouco judia) e vinha de uma família menos nobre que a deles.

No começo do século 20, Albert e Mileva publicaram um artigo científico juntos – mas ele acabou sendo assinado apenas por Einstein. Em 1902, eles tiveram uma filha, Lieserl. O parto aconteceu na Sérvia, e Albert estava na Suíça.

Pouco se sabe sobre Lieserl. A existência da primeira filha do casal, na verdade, só foi descoberta em 1986, com o aparecimento das cartas de Albert. Ele e Mileva ainda não estavam oficialmente casados e, na época, ter uma filha “ilegítima” era mal visto pela sociedade. Os historiadores supõem que Mileva a deixou na Sérvia com sua família ou a tenha entregado para adoção – ou ainda que ela morreu com apenas dois anos, vítima de escarlatina.

Seja como for, esse triste capítulo não abalou o relacionamento dos dois. Eles se casaram em 1903 e, no ano seguinte, veio o segundo filho, Hans Albert. 

Foi uma época atarefada na casa dos Einstein. Durante o dia, Albert trabalhava no Escritório de Patentes de Berna, na Suíça, enquanto Mileva cuidava de Hans e das tarefas domésticas. À noite, os dois trabalhavam juntos, revisando teorias. Em 1905, Einstein publicou cinco dos artigos mais importantes da física do século 20. Um deles apresentou ao mundo a Teoria da Relatividade; em outro, descreveu o efeito fotoelétrico – pelo qual ganhou o Prêmio Nobel em 1921.

Tudo chega ao fim

Em 1910, Albert e Mileva tiveram outro filho, Eduard. Até então, tudo parecia estar tranquilo: até 1911, há registros de cartões-postais com mensagens carinhosas de Albert para a esposa.

As coisas se complicaram em 1912. Naquele ano, Einstein começou um caso com sua prima, Elsa Löwenthal, que conheceu enquanto visitava sua família, que havia se mudado para Berlim. Nos anos seguintes, eles se corresponderam em segredo. Em 1914, o físico aceitou um cargo na capital alemã para ficar mais próximo dela.

Nas cartas em que trocou com Elsa, Albert deu detalhes sobre o seu casamento e deixou claro seu desprezo por Mileva. Ele a descreveu como “uma criatura hostil e sem humor” e “uma funcionária que não posso demitir”.

Ou seja: com ou sem lista de exigências, a situação era incontornável. Mileva e Einstein se separaram em 1914, quando ela saiu de casa com os filhos. Nos anos seguintes, Albert implorou para que a ex-esposa assinasse o pedido de divórcio em troca, ele disse que, caso um dia ganhasse o Nobel, transferiria o prêmio integralmente para ela (o que, de fato, aconteceu em 1922).

A separação foi oficializada em 1919. Em 1922, cumprindo sua promessa, Einstein transferiu o que havia ganhado com o Nobel para Mileva. Mas não foi o suficiente. Ela viveu de forma humilde, dando aulas particulares para completar a renda e cuidar dos filhos (Einstein enviava pensão, mas de forma inconstante).

A situação financeira se complicou ainda mais quando o filho Eduard, que já frequentava sanatórios, foi diagnosticado com esquizofrenia em 1933, aos 22 anos. Ele precisou ser internado em uma clínica psiquiátrica na Suíça. Eventualmente, ele voltou para casa, onde foi assistido pela mãe.

Mileva morreu em 1948, aos 72 anos. Àquela altura, Albert morava há mais de uma década nos EUA. Ele se correspondia com a ex-esposa, mas não pôde acolher Eduard por sofrer de um transtorno mental, os EUA proibiam a sua entrada no país. Einstein morreu sete anos depois, em 1955.

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A lista de exigências de Albert Einstein para “salvar” o seu casamento Publicado primeiro em https://super.abril.com.br/feed