terça-feira, 1 de setembro de 2020

Insuficiência cardíaca: quando a bomba requer manutenção

Fadiga, falta de ar, tosse, inchaço dos membros inferiores, aumento da frequência cardíaca, perda de memória, confusão mental… Para muitas pessoas, esses desequilíbrios são vistos como intercorrências momentâneas atribuídas ao envelhecimento e ao estresse da vida moderna. Mas esses sintomas também podem acusar a insuficiência cardíaca (IC), uma doença que, sem tratamento adequado, chega a levar à morte.

A insuficiência cardíaca se caracteriza pelo coração fraco ou rígido, que não consegue cumprir sua função de bombear sangue suficiente para o corpo, comprometendo a irrigação dos órgãos e lesando o sistema de maneira geral. Ela afeta um ou ambos os lados do coração. É como se uma bomba d´água deixasse de funcionar de forma adequada para abastecer o sistema hidráulico da casa toda.

Há várias causas da IC. Entre as mais comuns estão as lesões do músculo cardíaco ocasionadas pelo estreitamento das artérias ou por infarto, hipertensão arterial – que faz o coração crescer demais ou enrijecer –, alterações nas válvulas do coração, defeitos congênitos, infecções que afetam o órgão e arritmias. Pré-disposição genética (ter pais ou parentes próximos com problemas cardíacos) também entra nessa conta. Estimativas indicam que uma em cada cinco pessoas com mais de 45 anos desenvolvem a insuficiência cardíaca.

A doença pode aparecer de uma hora para outra, mas sua característica mais marcante é ser crônica e de longo prazo. Isso parece ruim, mas tem seu lado bom: se diagnosticada em estágio preliminar, ela pode ser acompanhada e tratada sem afetar muito o bem-estar de seus portadores.

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Insuficiência cardíaca é uma questão de saúde pública

Estamos falando de um dos problemas do coração que mais crescem no mundo. Ele está associado à alta mortalidade e à baixa qualidade de vida, devido a internações recorrentes e de alto custo. A relevância fez com que o tema ganhasse as páginas da edição comemorativa de 30 anos da revista científica da Socesp – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, inteiramente dedicada ao assunto.

Atualmente, estima-se que 23 milhões de pessoas no mundo tenham IC. No Brasil, os dados apontam para 3 milhões, com cerca de 50 mil mortes por ano. Estudos indicam que uma das razões para a curva ascendente é a alta incidência de hipertensos (muitos deles mal controlados). Outra envolve o fato de que mais indivíduos, graças aos avanços da medicina, sobrevivem aos infartos hoje em dia. Com isso, eles carregam lesões cardíacas para o resto da vida que podem desencadear a insuficiência. O envelhecimento da população também contribui para o cenário atual.

Um levantamento do 1º Registro Brasileiro de IC (Breathe – Brazilian Registry of Acute Heart Failure) constatou que, no decorrer de 12 meses, 40% de 1 270 pacientes internados em 51 hospitais de 21 cidades brasileiras morreram. Do total, 73,1% apresentavam idade superior a 75 anos e 60% eram mulheres.

Como tratar a evitar a insuficiência cardíaca

Uma vez diagnosticada, essa doença será tratada segundo sua gravidade, considerando, principalmente, as razões que a desencadearam. Casos mais leves podem ser controlados com mudanças simples no estilo de vida: alimentação saudável, exercícios físicos e uso de medicamentos.

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Já as situações mais graves podem requerer procedimentos cirúrgicos de correção, colocação de marcapasso e até transplante cardíaco ou a utilização de dispositivos que substituem a bomba do coração. É o chamado “coração artificial”.

Entretanto, por mais que a ciência avance buscando caminhos de cura ou controle, não existe nada tão benéfico quanto atitudes que se antecipam às doenças ou à obtenção do diagnóstico precoce. Com a insuficiência cardíaca não é diferente: iniciativas ao alcance de todos podem salvar vidas e são o pontapé inicial para ganhar esse jogo.

Uma vez que infartos, diabetes do tipo 2 e hipertensão arterial estão entre as principais razões para a IC, a prevenção e tratamento desses fatores de risco é fundamental para se evitar o enfraquecimento do músculo cardíaco. Segundo pesquisadores da Universidade McMaster, no Canadá, a queda de 10 pontos na pressão arterial sistólica (aquela de valor mais alto) reduz em 50% o risco de insuficiência cardíaca.

Exercícios físicos, fim do tabagismo e alimentação saudável são sempre a melhor recomendação para prevenção. Caminhadas – entre outras modalidades – e ingestão de frutas, hortaliças, carnes magras (peixes assados ou cozidos pela menos uma vez por semana) e cereais, além da diminuição do consumo de gorduras trans e sal, são procedimentos muito bem-vindos.

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*Marcelo Franken é cardiologista e diretor de Publicações da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo – Socesp


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