sexta-feira, 14 de maio de 2021

Renata Sgobbi estuda como os hormônios femininos influenciam a ansiedade

Se você acompanha a Super ou qualquer outro site que fale sobre ciência, já deve ter visto dezenas de estudos que envolvem modelos animais. Em português claro, isso nada mais é do que o uso de camundongos ou ratos em pesquisas. As vacinas contra a Covid-19, por exemplo, foram testadas nesses roedores e em primatas antes de chegarem em humanos.

Geralmente, essa informação é suficiente para entender o estudo. Mas você já se perguntou qual é o sexo dos animais usados em testes? Para a maior parte das pesquisas, todos os animais são machos. Os laboratórios evitam usar fêmeas devido à complexidade hormonal das ratinhas. Assim como as humanas passam pelo ciclo menstrual, que dura 28 dias, as fêmeas de ratos e camundongos vivem o ciclo estral, que dura de quatro a cinco dias.

A bióloga Renata Ferreira Sgobbi está interessada justamente nessa complexidade. Desde o mestrado, ela trabalha com transtornos neurológicos comparando o comportamento de machos e fêmeas. “Elas mudam de comportamento de um dia para o outro, por causa dos níveis hormonais. Não dá para juntar todas em uma coisa só, como se faz com os machos. A gente tem que pensar na fêmea em quatro fases diferentes”, diz a pesquisadora.

Renata se formou na Universidade Estadual de Londrina, mas conduziu a maior parte das pesquisas na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Ela compara como as fêmeas lidam com o medo e ansiedade em cada fase do ciclo. Quando os níveis de estrógeno e progesterona estão mais altos, as ratinhas ficam mais destemidas, quase como se os hormônios tivessem um efeito protetor sobre o medo. Esse é o período em que as fêmeas estão receptivas para acasalar.

A pesquisadora verificou isso em laboratório ao estudar transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) nos camundongos. Ele ocorre quando o indivíduo passa por um grande trauma, e então qualquer gatilho pode resgatar o medo e a memória do evento.

Para reproduzir o TEPT nos roedores, eles são mantidos por 4 horas em caixas com pequenas aberturas. Uma serpente é colocada para rastejar sobre as caixas, fazendo com que os roedores vivenciem o trauma. No dia seguinte são expostos ao confronto com a serpente e sua exúvia (que é a “pele” da cobra) durante 5 minutos. Renata analisa como os machos e as fêmeas em cada fase lidam com o confronto. Depois de seis dias, ela repete o mesmo procedimento com os camundongos, mas utiliza apenas a exúvia.

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As fêmeas com altos níveis de progesterona e estrógeno não parecem estressadas ou ansiosas com a presença do predador. Elas circulam pelo ambiente e algumas chegam até a subir na serpente.

Mas basta um dia para as fêmeas ficarem acanhadas de novo. Cada fase do ciclo estral dura um dia ou poucas horas. Para verificar em qual fase se encontram, a bióloga coleta amostras do canal vaginal das fêmeas e verifica em qual estágio as células se encontram. Acontece que a mudança de comportamento é tão grande que dá para saber em qual fase elas estão antes mesmo de olhar para o microscópio. A queda hormonal faz com que os níveis de ansiedade e medo aumentem.

Agora, pense no ciclo menstrual feminino como uma versão mais longa do ciclo estral. A queda hormonal nas mulheres ocorre no período pré-menstrual e também na menopausa. Os relatos de ansiedade costumam ser maiores nessas fases.

A ansiedade atinge até três vezes mais mulheres do que homens. Os medicamentos disponíveis, no entanto, não levam em conta essa montanha-russa de hormônios que é o ciclo menstrual. “Seria excelente se a gente tivesse um medicamento que fosse indicado para certos dias do ciclo”.

Da pesquisa com camundongos até o desenvolvimento de um novo medicamento, ainda há um longo caminho a percorrer. Mas toda droga passa pelos modelos animais antes de chegar nos humanos. Nas próximas pesquisas, Renata irá avaliar o uso do canabidiol para o tratamento do estresse pós-traumático nos animais. A pesquisadora pretende verificar em qual fase do ciclo estral a substância pode ser mais benéfica.

Quando a pesquisadora começou a trabalhar com modelos animais femininos, poucos pesquisadores faziam o mesmo. Mas Renata afirma que isso tem mudado nos últimos cinco anos. “O meu objetivo é incluir esses hormônios em pesquisas de neurociência. Acho importante expandir cada vez mais a área e dar uma visão mais ampla dos transtornoc”, diz ela.

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