sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Afinal, do que estamos falando quando falamos de uma virose?

Quem nunca teve ou não conhece alguém que teve uma virose? A pessoa vai ao médico com tosse ou dor de barriga e, em alguns minutos de consulta, não sabe se sorri ou se chora com esse diagnóstico.

Existem 1 400 espécies de seres vivos unicelulares e multicelulares capazes de causar doenças em seres humanos, das quais 60% são zoonoses, ou seja, que se transmitem entre nós e outros animais. Daquelas que não são zoonoses, como o sarampo e a extinta varíola humana, quase todas tiveram uma origem zoonótica. E não para por aí: das doenças emergentes, como ebola e Covid-19, 70% pularam de outros animais para gente como a gente em algum momento.

Esse “ose” de zoonose vem do grego nósos, que significa “doença”. Assim, doenças causadas por fungos (mykes, no original em grego) são as micoses. Aquelas provocadas por bactérias são bacterioses. Se quem está por trás são os vermes, temos as verminoses. E por aí vai.

Cada um deles toma um caminho diferente para entrar no nosso corpo e realizar seu único desejo: reproduzir-se. E é nesse processo que acabam causando doenças. É importante saber em que “caixa” cada tipo de organismo se enquadra para entender a transmissão, a prevenção e o tratamento de suas doenças.

Uma dessas caixas é etiquetada como “viroses”. E é a mais escura de todas as caixas citadas até aqui. Isso porque ela guarda um grupo tão diverso quanto misterioso, o dos vírus.

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Eles só foram reconhecidos da forma como os conhecemos hoje na última década do século 19. Em latim, virus vem a ser “veneno”, e o termo foi usado como sinônimo de uma causa de doença até o século 19, mesmo que o problema não fosse causado por um vírus. Falava-se, no passado, em “vírus da tuberculose” ou “vírus do cólera”, fazendo referência a algum veneno por trás dessas doenças que, sabemos hoje, são provocadas por bactérias.

Mas, afinal, o que é um vírus? É mais fácil fazer fãs de Star Wars e Star Trek concordarem entre si do que achar um consenso entre os virologistas na hora de definir os vírus.

Bem, aqui vai minha definição pessoal: um vírus é um ser vivo não celular que não vive uma vida longa e próspera se não pegar emprestada uma célula de outro ser vivo. Vírus são como pequenas cápsulas que procuram transportar seus genomas, de diversos tamanhos e medidos em milionésimos de milímetro, de célula em célula, podendo causar diferentes graus de doença nos hospedeiros.

Então vírus são seres “vivos”? Se considerarmos que são formados por moléculas orgânicas, nascem, crescem, se multiplicam e evoluem, por que não?

Se nos miniaturizássemos e pudéssemos acompanhar o ciclo de vida de um vírus, veríamos que tudo começa com ele se prendendo à superfície da célula em um modo chave-fechadura — a chave viral e a fechadura celular. Se ele não tiver a chave certa, não abre as portas da membrana da célula.

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Lá dentro, a cápsula viral se desmonta e entrega seu “presente de grego”: um programa escrito em forma de DNA ou de RNA, a depender do vírus. Com essa intromissão genética, o ser microscópico toma o controle da célula e a faz produzir as peças necessárias para montar seus filhotes virais, que saem da célula e começam tudo de novo.

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Só que isso pode ter um alto custo para o hospedeiro. O programa viral acaba impedindo que a célula faça suas próprias “peças”, porque satura ou bloqueia a fabricação delas e interfere no ciclo de vida celular, podendo atrasar ou adiantar seu relógio biológico.

Outra consequência para uma célula infectada é que as fibras que mantêm sua estrutura acabam se desfazendo, e sua membrana fica esponjosa e mais permeável, deixando de filtrar o que entra e sai de lá. Partindo do pequeno mundo celular para um universo mais amplo, o de tecidos, órgãos e sistemas do corpo humano, a invasão é traduzida por lesões, que se expandem tanto que começam a comprometer funções importantes.

Esse mesmíssimo script se repete numa hepatite, numa pneumonia, gastroenterite ou encefalite viral e numa infecção que anula nosso sistema imune (o HIV) ou é capaz de deixá-lo enlouquecido (como em casos graves de Covid-19).

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O repertório viral é vasto! Algumas espécies causam problemas à flor da pele — vide a monkeypox —, outras levam ao desenvolvimento do câncer, caso do HPV. Aí estão elas finalmente, as doenças causadas por vírus, as famosas viroses! Sim, vão muito além de espirros e diarreias…

A questão é que o ataque e a difusão de fungos, bactérias ou protozoários podem ser indistinguíveis das viroses no início. E muitas viroses também são parecidas entre si. É difícil dizer quem é quem num exame superficial.

Eis um dos motivos pelos quais, tanto na medicina humana como na veterinária, quando o paciente tem sinais e sintomas inespecíficos, o profissional levanta a hipótese de virose.

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Outro fator que atrapalha um diagnóstico mais acurado é que bactérias, fungos e companhia podem ser vistos em microscópios convencionais: crescem em tubos de ensaio rápido e, dado seu tamanho em comparação com os vírus, é mais fácil visualizar os detalhes que os distinguem uns dos outros.

Com os vírus, as coisas se complicam um pouco. Para ter certeza de que o quadro é uma virose mesmo e, se for, quem é o vírus que está ali, precisamos olhar para o genoma, recorrendo a tecnologias como a do PCR (reação em cadeia pela polimerase), com a qual nos familiarizamos durante a pandemia. Ela serve justamente para enxergarmos as pegadas e as diferenças genéticas dos vírus.

Existem mais de 5 mil espécies na virosfera, e esse número aumenta a cada dia. A descoberta de um agente viral representa um salto em nosso conhecimento da biodiversidade do planeta. Mas essas novas espécies também podem ser ameaças à saúde pública — a dos seres humanos, a dos animais e a das plantas das quais dependemos.

O que mais está escondido nessa caixa de viroses? Os mesmos gregos que nos deram palavras como nósos e mykes nos deram a história de Pandora, que, por curiosidade, abriu certa caixa e libertou uma hoste de males para a humanidade. No século 21, se investirmos em Pandoras curiosas com educação e ciência, conseguiremos pensar fora da caixa — e nos proteger. E não é grego para ninguém que prevenir é melhor que remediar.

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