segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vacinas X Covid: chegar é uma coisa, ultrapassar é outra

Complicado. O Reino Unido, que deu o pontapé inicial na vacinação, decidiu adiar a segunda dose. Todas as vacinas que você vê no noticiário requerem duas doses. A da Pfizer, primeira a ser adotada lá, exige um intervalo de até três semanas entre as injeções. Mas Boris Johnson resolveu aplicar a segunda só daqui a seis meses.

O governo britânico entendeu que não teria tempo de vacinar boa parte de sua população com duas doses – não há doses o bastante, ao menos para os primeiros meses de imunização. A nova variante do vírus, 70% mais contagiosa, poderia colapsar o sistema de saúde deles antes disso. Então, em vez de dar duas doses para menos gente, vão dar uma só para mais gente.

Bom, a dose dupla da vacina da Pfizer tem 95% de eficácia. A única, 52%. Num primeiro momento, então, só metade de quem tomar vai desenvolver anticorpos. E o consenso é de que, para minar a pandemia de fato, pelo menos 70% da população precisa estar imunizada.

Pior: a Pfizer diz que simplesmente não sabe se uma segunda dose após três meses pode ter algum efeito. Todas as pesquisas foram feitas usando o intervalo de três semanas. Ou seja: não dá para dizer que o Reino Unido tomou uma decisão racional.

Tanto que, nos EUA, não se cogita adiar a segunda dose. Mas isso não significa que esteja tudo certinho por lá. O país foi o que melhor se preparou para um programa de vacinação em massa, encomendando 800 milhões de doses das vacinas mais adiantadas (o bastante para 400 milhões de pessoas, e a população dos EUA é de 330 milhões). Mas encomendar é uma coisa, receber é outra. E o ritmo de vacinação por lá está abaixo do esperado. O governo tinha prometido 20 milhões de vacinados até o final de 2020. Entregou 2,8 milhões, a um ritmo de 164 mil injeções por dia. Em janeiro, essa média subiu bem, para 350 mil/dia. Ainda falta chão, porém. Se dobrarem essa velocidade, a vacinação nos EUA só termina em abril de 2022.   

Enquanto lá fora faltam doses, aqui, você sabe, faltam seringas. Na licitação que fez no final de dezembro, o governo federal fechou a compra de meros 7,9 milhões de unidades, quando a ideia era adquirir 331 milhões. Bolsonaro alegou que estavam cobrando caro demais – numa amostra de que ignora a lei da oferta e da demanda, e o bom senso. E não haverá muito o que colocar nessas seringas tão cedo.

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A Fiocruz deve fabricar 210 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca. Mas essa quantidade só deve ser atingida no segundo semestre. E claro: o imunizante requer duas aplicações, então isso só cobre metade da população. Por isso mesmo, o Ministério da Saúde abriu uma trégua política e confirmou que a chinesa Coronavac estará no programa nacional de vacinação, com 100 milhões de doses.

Ainda assim, isso significa 150 milhões de pessoas, e há 210 milhões de brasileiros – como casos de reinfecção são raros, os 7 milhões de brasileiros que sabem que já pegaram Covid e estão bem hoje poderiam, em tese, ficar no fim da fila. Mesmo assim, há um caminho a ser percorrido. E sair dizendo que “se a vacina te transformar num jacaré, eu não tenho nada a ver com isso”, como fez, e faz, Jair Bolsonaro, não ajuda. Se a falta de doses é um problema, a falta de gente a fim de tomar consegue ser algo ainda pior para a saúde pública. Um em cada cinco brasileiros (20%) já diz que não pretende se vacinar (logo, não deve levar os filhos).

Para tirar o vírus de circulação, é necessário que 70% da população esteja vacinada. Como a eficácia da Coronac nos testes por aqui foi de 78%, vamos precisar de uma cobertura vacinal ainda mais ampla. Se todos os que não pretendem nem tomar nem levar os filhos para a imunização mantiverem esses ponto de vista, o vírus vai continuar circulando, e matando, ainda por muito tempo.     

O Instituto Butantan, de qualquer forma, tem uma boa notícia: diz que terá 40 milhões de doses da chinesa Coronavac ainda em janeiro. O governo de São Paulo, por outro lado, chegou a avaliar um adiamento da segunda injeção, o que reduziria ainda mais a eficácia real do imunizante. 

É isso. Seria ingênuo imaginar que o maior programa de vacinação da história da humanidade seria um caminho suave, rápido. Ainda há muito o que fazer  para que 2021 se torne mesmo o último ano da pandemia, e 2022 seja, de fato, o primeiro ano do resto das nossas vidas. O lado bom dessa história: há dez meses, quando tudo começou, havia pânico. Falava-se numa onda global de saques de alimentos, no fim da economia; muitos estavam certos de que o isolamento destruiria nossa sanidade mental.

Mas não. Seguimos de pé. Mais preocupados, mais sozinhos, mais saudosos – em muitos casos, de luto. Mas seguimos. E agora a gente sabe que não entrega os pontos no primeiro assalto. Bom 2021. E um feliz 2022.

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